Para que Ainda Orangotangos pudesse ser concretizado, a produção teve que ser extremamente planejada, já que a filmagem ocorreu, em boa parte, nas ruas de Porto Alegre e dentro de ônibus, acompanhando a mudança de luz entre amanhecer e anoitecer. O roteiro, do próprio Spolidoro e Gibran Dipp, adaptou seis contos do escritor gaúcho Paulo Scott.
Nessas diversas histórias que se cruzam, uma seguindo a outra sem uma ligação direta a não ser acontecerem na mesma cidade, passa-se por todo tipo de situação, do drama à comédia. Na primeira dela, um casal de namorados de origem japonesa viaja no metrô. Os dois dormem. Até que, quando vão descer, o rapaz descobre que a garota está morta. Ou parece estar.
A câmera segue esse rapaz até o mercado – o Mercado Central de Porto Alegre -, onde ele vende um relógio a um menino. A câmera acompanha esse menino dentro de um ônibus, onde acontece talvez a discussão mais engraçada do filme, envolvendo duas mulheres que fazem uma estranhíssima ligação entre as visitas do Papa a Porto Alegre e as vitórias no campeonato estadual dos dois principais times locais, o Grêmio e o Internacional.
Torcedor do Internacional, o cineasta realizou também um documentário sobre a vitória de seu time no campeonato mundial da FIFA, Gigante – como o Inter Conquistou o Mundo. Lançado em 2007 em cinema e DVD, este documentário foi filmado depois de Ainda Orangotangos que só chega às telas agora.
A idéia já havia sido testada pelo diretor num curta, Outros (2000). Muitos anos antes disso, o inglês Alfred Hitchcock já havia testado a idéia de abolir a montagem, filmando suas cenas em continuidade até que os rolos do filme se esgotassem no seu ótimo Festim Diabólico (1948).
A questão que se coloca, porém, não é a novidade, o ineditismo de um longa feito num único plano-seqüência - desafio técnico considerável mas um tanto vazio, no caso do filme de Spolidoro. O motivo - não há um roteiro suficientemente significativo que segure a façanha técnica. E, sem isso, o filme não vibra tudo o que se poderia esperar.
