Zakir sempre deixou claro que não estava investindo numa carreira de diretor, apenas quis fazer um filme. Como cinéfilo aplicado que é, o resultado se vê na tela. Carregado de uma boa vontade, Cana Quente não é um filme destituído de qualidades – em especial a fotografia do veterano Aloysio Raulino (O Aborto dos Outros), que capta a paisagem do interior de São Paulo.
A história transita entre o drama e os suspense. Numa pequena cidade usineira, um cortador de cana conhecido como Índio (Hugo Casarini) chama a atenção por sua aparência diferente dos colegas de trabalho. Um crime acontece na região e uma moça é encontrada morta. O rapaz se torna o principal suspeito. Para complicar sua situação, ele está envolvido com duas mulheres poderosas da cidade e não tem um álibi para se livrar da acusação.
Zakir, que também assina o roteiro, não está interessado em fazer um filme de gênero, um suspense em busca do criminoso. Na verdade, aqui ele trabalha as relações pessoais e sociais tensas que amarram o grupo de personagens.
Com esse título, Cana Quente remete ao universo de José Lins do Rego, autor de livros como Menino de Engenho e Usina. Mas a abordagem de Zakir apenas flerta com a temática social. Aqui o interesse é o mundo íntimo dos personagens, que pode ser tão devastador quanto a disputa por poder político.
