Quem assistiu ao filme Cidade de Deus, de Fernando Meirelles e Kátia Lund, vai encontrar muitos pontos comuns com Gomorra, do italiano Mateo Garrone, inspirado no livro homônimo de Roberto Saviano, best-seller na Itália e com tradução prevista para mais de 30 idiomas (a edição brasileira já foi lançada). O mesmo choque e a mesma polêmica alimentada pela violência estampada no filme brasileiro (por coincidência, baseado numa outra obra literária, de autoria de Paulo Lins), também se repetiu na Itália quando da estréia desse retrato cru das ações do grupo criminoso napolitano para dominar o mercado e lavar seu dinheiro sujo por meio da criação e manutenção de empresas de fachada, que prosperam à margem da lei.
Tanto Cidade de Deus quanto Gomorra são retratos sem retoque de sociedades nas quais a ausência do Estado e o completo abandono dos cidadãos pavimenta a estrada para a entrada do crime organizado, que oferece empregos, cobra taxas de proteção e implanta um verdadeiro regime de terror em comunidades desprotegidas. No caso italiano, esse retrato ganha ainda mais dramaticidade com a constatação de que os tentáculos da Camorra avançam na cadeia produtiva do país, como denuncia o livro de Saviano, que se infiltrou no grupo criminoso e trouxe à luz fatos obscuros. O empenho do escritor e jornalista, que mergulhou de cabeça na investigação, despertou a ira do grupo mafioso. Como o escritor britânico Salman Rushdie, acusado de blasfêmia pelo aiatolá Khomeini, em 1989, e condenado à morte, Saviano também foi objeto de uma fatwa napolitana e está com a cabeça a prêmio. Hoje, a exemplo de Rushdie, vive cercado de agentes de segurança.
Saviano mexeu em um vespeiro sangrento, bem retratado no filme de Matteo Garrone, que recebeu o grande prêmio do júri no Festival de Cannes/2008. O filme mostra o cotidiano desesperançado de jovens desempregados e seus familiares em um conjunto habitacional na periferia de Nápoles. Muitos deles ganham a vida trabalhando para a Camorra, seja como olheiros, estafetas e cobradores, ou eliminando outros jovens que tentam burlar o domínio mafioso trabalhando para outros grupos rivais.
Dois jovens desocupados (Marco Macor e Ciro Petrone), em busca de prestígio e respeito entre os colegas da mesma idade, tentam, de forma inconseqüente, passar a perna no grupo mafioso praticando pequenos delitos e prejudicando seus negócios. Eles andam no fio da espada e se sentem cada vez mais encorajados a praticar ações mais espetaculares, como roubo de armamentos.
Um menino franzino (Salvatore Abruzzese), cujo pai está na prisão, ajuda a mãe a entregar alimentos a outras famílias do conjunto habitacional. A mulher recebe a visita periódica de Franco (Toni Servillo), que lhe faz pagamentos em dinheiro, espécie de compensação financeira enquanto o marido estiver atrás das grades. Ele passa por vários endereços e vai distribuindo essa pensão.
Em outra ponta, um dedicado costureiro (Salvatore Cantalupo) cria vestidos refinados, pirateando modelos de grifes famosas, que são fabricados por um empresário financiado pela Camorra e que obriga suas costureiras a trabalharem até à exaustão para garantir preços mais baixos. Para ganhar um dinheiro adicional, o costureiro aceita trabalhar à noite, clandestinamente, para um grupo de chineses.
Todas essas histórias, cercadas por desfechos trágicos, são desenvolvidas entre as inúmeras recolhidas por Saviano em seu livro. Algumas dessas pessoas se conhecem, outras não, mas não deixam de fazer parte dessa grande família que vive do crime ou padece nas mãos dos chefões e seus executores. Poucos tentam e conseguem fugir desse círculo vicioso. A maioria parece conformada com um destino trágico. Saviano, que desmascarou a rede criminosa com seu livro, está entre os que não se conformam.
