25/06/2026
Drama

Alguém que Me Ame de Verdade

Numa escola primária em Nova York, duas professoras de religião diferente tornam-se amigas. Uma muçulmana, a outra judia, as duas sofrem pressão da família para aceitar casamentos arranjados.

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Dirigido pela dupla Diane Crepo e Stefan Schaefer (autor do roteiro), este filme aparentemente ameno é um camaleão. Sob a aparência inofensiva de uma comédia romântica e politicamente correta, que prega a convivência pacífica entre ortodoxos judeus e muçulmanos – desde que não implique num casamento misto -, a receita adocicada encobre uma grossa camada de conservadorismo moral e religioso. Típico retrato da era Bush que, esperemos, esteja mesmo acabando sob uma chuva de sapatos.

A atraente dupla principal é formada pela judia ortodoxa Rochel (Zoe Lister Jones) e a muçulmana Nasira (Francis Benhamou). Duas gracinhas, elas lecionam na escola primária Ditmas Park, no Brooklyn novaiorquino, um espaço de alunos e professores multiétnicos e multiculturais.

Superjovens e bonitas, as duas são bem religiosas e comportadas, aceitando sem qualquer conflito a obrigação de casar-se por arranjo familiar, dentro da própria comunidade. Sempre coberta da cabeça aos pés, com camisas abotoadas até o pescoço e saias compridas, Rochel, de 22 anos, é a caça do momento das casamenteiras de sua comunidade, que listam os melhores partidos para ela. Tudo o que se espera dela é marcar encontros dentro desta lista, casar e começar logo a ter filhos. Como ela não está gostando de nenhum dos pretendentes, começa a ser duramente pressionada, especialmente pela mãe (Mimi Lieber).

A família muçulmana é mais suave. Mas também arranja um pretendente feio, gordo, rico e 20 anos mais velho para a bela Nasira. Ela recusa e o pai (Laith Nakli) mostra-se totalmente conciliador. Aí, aparece um bonitão que torna tudo bem mais fácil para todos.

O mundo exterior a esse rigor religioso dos dois lados é sempre mostrado com impressionante preconceito. A diretora da escola (Marcia Jean Kurtz), única a levantar objeções ao que vê como excessiva devoção das duas professorinhas, é apresentada como uma pessoa caricata, que menciona o feminismo às duas com impressionante falta de tato. Não será a última vez que se comportará assim.

Leah (Alysia Reiner), uma prima de Rochel que fugiu do sufoco ortodoxo, parece uma personagem positiva e livre. Mas, quando leva a priminha, em crise passageira com seus valores, a uma festa, a situação apresenta-se igualmente caricatural, um ambiente em que o trio homens paqueradores-caipirinha-maconha mostra-se dose excessiva para Rochel.

O que o filme parece estar de fato reivindicando é o direito da manutenção das tradições religiosas, quaisquer que elas sejam. Assim sendo, o que se vê é um mundo fechado em si mesmo, com pessoas simpáticas, famílias felizes e onde se releva o fato de que as moças não têm realmente uma escolha livre de “alguém que as ame de verdade” – o infeliz título brasileiro, que não combina nem um pouco com a história. Porque não há real liberdade de escolha para estas duas e nem elas a reivindicam.

Quadros bem mais complexos e críticos enfocando os casamentos arranjados podem ser vistos em filmes bem melhores, caso de Apenas um Beijo, de Ken Loach, e no ainda inédito Um Lugar Chamado Brick Lane, de Sarah Gavron. Nos dois, homens e mulheres agem e respiram como gente de verdade, num mundo múltiplo, em que não há apenas uma visão, uma cultura, uma religião – e todas elas têm ou lutam pelo direito de conviver às claras e misturar-se entre si.

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