19/07/2026
Comédia

Pagando bem, que mal tem?

Zack e Miri são um casal de amigos cheios de problemas financeiros. Pensam resolvê-los fazendo um filme pornográfico. No entanto, quando começam a ‘atuar’, descobrem que os seus sentimentos um pelo outro são mais fortes do que a amizade.

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Desde sempre, a pornografia deu o que falar. Os primeiros desenhos rupestres com temáticas sexuais datam do Paleolítico e eram associados à espiritualidade. Dois milhões de anos depois, a doutrina hindu impeliu o nobre Mallanaga Vatsyayana a criar o mais antigo manual de comportamento sexual de que se tem notícia, o Kama Sutra. O assunto também ilustrou objetos na Grécia Antiga e paredes de bordéis durante o Império Romano. No Renascimento, afrescos pornográficos estamparam salas do Vaticano pouco antes de seu criador, o pintor Giulio Romano, ser descoberto e banido da cidade. Até o século o 19, o sexo esteve em cartões postais, ilustrações, cartas de baralho, etc.

Daí, foi preciso apenas que o processo de reprodução de imagens se desenvolvesse para que pornografia alcançasse o status de indústria. O mercado, que hoje movimenta cerca de 13 bilhões de dólares ao ano, é motivo de sátira na produção do norte-americano Kevin Smith, Pagando Bem, que Mal Tem?. Para quem já assistiu a outros filmes do diretor, responsável pela saga dos amigos Jay e Silent Bob em O Balconista (1994) e O Império (do Besteirol) Contra-Ataca (2001), já sabe o que esperar: obscenidades, linguagem sexual e outras cenas de gosto duvidoso, somadas a uma ou outra boa piada.

O filme faturou 10 milhões de dólares na semana de estreia e conta a aventura de Zack (Seth Rogen) e Miri (Elizabeth Banks), amigos desde a infância que compartilham a casa e os problemas financeiros. Mas a pilha de contas não pagas sobre a mesa só é levada a sério quando água e luz são cortadas. Para levantar alguns trocados, a dupla decide realizar um filme pornô e vasculha pelo submundo do cidade até encontrar interessados em participar das filmagens. Durante o processo, eles descobrem que há mais do que amizade nesse relacionamento.

Nos Estados Unidos, o MPAA (Motion Picture Association of America) pegou pesado com Pagando Bem, que Mal Tem?, que foi por três vezes considerado impróprio para menores de 17 anos. Como o público de Smith é em sua maioria composto por adolescentes, o diretor resolveu apelar e o órgão permitiu a entrada de menores no cinema, desde que acompanhados pelos pais. A discussão, no entanto, parece um pouco ingênua em tempos de internet. Sites como o PornTube e o YouPorn oferecem diversão adulta e gratuita a quem se declarar maior de 18 anos. E não mais estamos falando de “clássicos” do gênero como O Garanhão Italiano (1970) ou Garganta Profunda (1972). A pornografia hoje é um produto de consumo imediato e tem caráter descartável, para o desprazer de empresas como a Vivid Entertainment Group, líder em entretenimento de conteúdo sexual.

No filme de Smith, certa nostalgia toma conta do espectador mais atento e de mais idade. Uma das personagens é interpretada por Traci Lords, ícone do pornô nos anos 70 e 80, que, ao lado de Nina Hartley, Angela Summers e outras, ajudou a alavancar as vendas do videocassete. Era época inocente, onde a subversão juvenil consistia em entrar na seção proibida da videolocadora e olhar a capa dos filmes. Hoje, John C. Rice e May Irwin, protagonistas de antigos “pornôs” do cinema, como The Kiss (1986), corariam só de imaginar ao que assistem os adolescente do segundo milênio.

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