Como é seu estilo, Ceylan aposta tudo na valorização dos primeiros planos dos seus protagonistas, exigindo grandes atores capazes de transmitir emoções complexas não raro num único olhar. E consegue isso de seu admirável trio de atores Yavuz Bingöl, Hatice Aslan e Ahmet Rifat Sungar, respectivamente como o pai, a mãe e o filho de uma família pobre corrompida por um político (Ercan Kesal).
No começo da história, o político Ercet (Kesal) atropela e mata uma pessoa numa estrada, numa noite chuvosa, em que ele dirigia com muito sono. Ele foge e convence, então, seu motorista Eyüp (Bingöl) a assumir o crime, para não enfrentar um escândalo em plena campanha política. Como compensação, faz-lhe a promessa de uma boa soma em dinheiro no final da pena de prisão que ele terá de cumprir, além de garantir mensalmente seu salário à mulher e ao filho.
Tentando realizar um sonho profissional do filho deslocado no mundo, Ismail (Sungar), a mãe Hacer (Aslan, belíssima e carismática) recorre ao político para um empréstimo em dinheiro. O encontro leva à sedução da mulher e acelera a desagregação moral deste núcleo familiar, que guarda entre seus traumas a morte de um filho criança (Gürkan Aydin) – que aparece, como fantasma, em duas cenas memoráveis.
O título remete à famosa imagem dos três macacos (um que não vê, outro que não ouve, outro que não fala), que traduz a impotência, a inabilidade de estar e de se comunicar no mundo, males que afetam todos nesta família. Em pinceladas rústicas, sem muitos diálogos, o filme evoca a crise familiar e o profundo desencontro entre homens e mulheres. Mesmo sendo única, a personagem feminina de Hacer consegue desenvolver a ambiguidade de seus papéis, mãe e esposa, mulher e amante, santa e pecadora, encarando o machismo de uma cultura dividida entre o Oriente e o Ocidente.
Pontuado por silêncios, 3 Macacos requer a participação ativa do espectador para preencher suas lacunas e escutar a fundo a alma dos personagens.
