Não é tão simples decifrar Poppy. Ela nada tem de ingênua, como alguns poderiam pensar. Ela sabe que o mundo não é nada cor de rosa, que o mal existe em toda parte. Mesmo assim, decidiu enfrentar essas constatações normais de qualquer vida a partir de outra postura. E com isso contribui incrivelmente para tornar o mundo melhor. Poppy é uma espécie de ecologista da mente.
Aos 30 anos, Poppy não tem crises com a sua solteirice. Aproveita sua condição indo a baladas com as amigas e namorando sempre que a oportunidade se apresenta. Um primor de autoaceitação e autoestima, vive feliz com o fato de que não é a mulher mais bonita do mundo, muito menos a mais elegante – seu guarda-roupa colorido e estampado é, muitas vezes, o que sem nenhuma maldade se pode chamar de brega. Ela não acha. Quem quiser, que goste dela como é. Senão, ela vai sorrir do mesmo jeito. Poppy é aquele tipo de pessoa capaz de tirar o máximo proveito e alegria até do ar que respira e agradecer a cada minuto por isso.
Professora primária, ela é uma espécie de alma gêmea de seus pequenos alunos, cuja liberdade de imaginação e sentimentos consegue espontaneamente compartilhar. Mas não é omissa nem passiva quando descobre que um aluno está se tornando agressivo. Seu bom humor implica tomar partido, ainda que procurando a forma mais delicada e não violenta para fazê-lo. Se estivesse vivo, Gandhi teria prazer em convidá-la entre seus seguidores.
Como nenhum filme respira sem um bom conflito ou opositor, este se apresenta sob a forma de Scott (Eddie Marsan), o instrutor de autoescola de Poppy. Ninguém poderia ser mais diferente dela: paranoico, machista, homofóbico, misógino, ele é um manual ambulante de ressentimentos. Poppy certamente o encara como um desafio, ainda mais quando nota que ele está ficando obcecado por ela.
Conhecido por dramas como Segredos e Mentiras (Palma de Ouro em Cannes 96) e O Segredo de Vera Drake (Leão de Ouro em Veneza 2004), o diretor Mike Leigh desenvolve uma história com o mesmo teor de humanidade de todas as suas outras. Sua direção evolui no sentido de permitir que os atores revelem uma verdade, que o público enxergue os andaimes emocionais de uma pessoa de carne e osso, que poderia existir fora do filme. É isto o que torna seus trabalhos tão envolventes, este em particular, pela entrega em estado de graça de sua protagonista, verdadeiramente adorável. Mérito total dela o prêmio de melhor atriz no Festival de Berlim 2008.
Cena impagável – a aula de flamenco, em que brilha uma professora (Karina Fernandez) que parece saída de um filme de Pedro Almodóvar.
