Até os corintianos de vez em quando brincam que são uma torcida que tem um time. O comentário reflete o tamanho da paixão dessa torcida, que não abandona o time do Parque São Jorge nem em seus piores momentos e, com muita justiça, empresta seu nome, Fiel, ao documentário de Andréa Pasquini.
Corintiana de carteirinha, assim como os roteiristas, o escritor Marcelo Rubens Paiva e o apresentador de TV Serginho Groisman, Andréa dispensa as entrevistas com dirigentes do clube – que apoiaram o projeto -, elegendo em seu lugar depoimentos apenas de torcedores, de alguns jogadores do clube e do técnico Mano Menezes. Uma escolha que evita o tom chapa branca de alguns documentários desse tipo, centrando fogo na ligação afetiva profunda e, tantas vezes, irracional que une os torcedores ao time, levando-os aos maiores sacrifícios e loucuras.
Através das falas desses torcedores, com o apoio de materiais de arquivo de TV, reconstitui-se os momentos mais marcantes da história do time – como a famosa invasão do Rio de Janeiro por cerca de 80.000 torcedores corintianos para comparecer a uma semifinal do Campeonato Brasileiro contra o Fluminense, em 1976; a quebra do jejum de títulos estaduais paulistas, depois de 23 anos de fila, em 1977; e um destaque especial para o dramático rebaixamento à Segunda Divisão do Campeonato Brasileiro, no final de 2007.
Entre os torcedores ouvidos, uma das mais marcantes é a gerente de relacionamento Danubia Cristiano dos Santos. Não só por ser fanática, no que ela está longe de não ter companhia, mas pela fibra que demonstra quando descobre que está com câncer e, mesmo abalada fisicamente pela quimioterapia, não abre mão de comparecer aos jogos do time. Aliás, ela até mora perto do Pacaembu, o estádio extraoficial do Corinthians.
Jogadores como Dentinho, Douglas, Lulinha e o goleiro Felipe, além do técnico Mano Menezes, falam especialmente dos momentos traumáticos que conduziram ao rebaixamento e da explosão de alegria na volta à elite do futebol nacional, no final de 2008. Menezes, aliás, é um veterano nesse tipo de ascensão: foi ele quem reconduziu o Grêmio de Porto Alegre à série A, no final de 2005.
A trilha sonora original, de Luiz Macedo, inclui uma raridade: Sou Fiel, uma música composta em 1994 pela cantora Rita Lee e o produtor musical do filme, Carlos Rennó. Na época, Rennó dirigia o setor de música do Museu da Imagem e do Som de São Paulo e organizou um evento com músicas novas para grandes times de futebol, resolvendo compor uma para seu time do coração.
Fiel soma-se, aliás com muitos méritos cinematográficos – tem ritmo, pulsação e ótimos personagens - àquele que já constitui um nicho, o dos documentários nacionais sobre futebol. O filão foi inaugurado por Inacreditável – A Batalha dos Aflitos (05), sobre o Grêmio, e Gigante – Como o Inter Conquistou o Mundo (07), sobre o Internacional, os maiores times gaúchos. O sucesso deste tipo de empreitada já animou outro time paulistano, o São Paulo, a começar a produção de seu próprio filme, que tem título escolhido: Soberano – Seis Vezes São Paulo.
Em tempo – estou longe de ser neutra nesta questão. Como sabem muito bem os que me conhecem, sou gaviã da Fiel desde criancinha. E por opção própria!
