Padilha começa o filme como fez Nelson Pereira dos Santos em Vidas Secas (1963). Só que, aqui, os passos decididos do protagonista Fabiano e sua gente são substituídos pelo caminhar automático de mães, que peregrinam até o povoado mais próximo em busca de comida. A cena documental ganha moldes de ficção graças ã montagem de Felipe Lacerda (Ônibus 174, Entreatos e Se Eu Fosse Você) que, paralelamente, contrapõe a caminhada das mulheres à espera das crianças em casa.
O longa foi filmado em 2005, mas só agora chega aos cinemas. A produção foi interrompida depois que o diretor recebeu o convite para realizar Tropa de Elite (2007), vencedor do Urso de Ouro no Festival de Berlim. Esse tempo ajudou Padilha, que adquiriu agora maior visibilidade para levantar a bandeira contra a fome no Brasil e no mundo.
Garapa também tem sido visto como arma para pleitear a aprovação de um Projeto de Emenda Constitucional para transformar a alimentação em direito garantido pela Constituição. Pela boca de personagens subnutridos, projetos assistencialistas, como o Bolsa Família e o Fome Zero, são legitimados, embora considerados insuficientes. A solução, no entanto, parece distante já que essas pessoas estão longe de se inserirem no contexto econômico de mercado, uma vez que não consomem nem o básico.
Em Garapa, o ser humano não tem autoestima nem sonhos, aceita, resignado, sua condição frente à vida e debita a conta à vontade de Deus. A questão é que Padilha aponta a câmera não para indivíduos mas para um grupo de desvalidos coeso e uniforme, que desperta a mesma compaixão que um animal maltratado. Por mais que se tente, não se consegue enxergar as pessoas. O material humano é mero objeto quando o que importa mesmo é o tema. Mas é mérito do filme fazer corar de vergonha diante do desperdício e da banalização do consumo de alimentos nos restaurantes da vida.
