03/06/2026
Drama

Há Tanto Tempo que Te Amo

Depois de cumprir uma pena de 15 anos, Juliette ganha liberdade e vai morar com a família de sua irmã. Enquanto tenta reintegrar-se à sociedade, ela luta contra fantasmas do passado.

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À primeira vista, o título Há Tanto Tempo Que Te Amo pode levar a pensar que este filme francês se trate de um drama romântico sobre paixões reprimidas e amores não concretizados. Nada mais enganador. A frase vem de uma música que tem uma grande importância para as duas irmãs protagonistas da história e que as remete ao resgate de um doloroso passado.

Roteirizado e dirigido pelo escritor francês Philippe Claudel, Há Tanto Tempo Que Te Amo não deixa de ser um filme sobre o amor. Mas não a paixão romântica e sim um grande afeto que se mostra, nesta história, tão altruísta quanto doloroso. Há uma dor muito grande consumindo os personagens – especialmente as irmãs Juliette (Kristin Scott Thomas) e Léa (Elsa Zylberstein, Pequena Jerusalém).

O diretor estreante Claudel (ganhador do César desta categoria) constroi seu filme em cima de seus personagens – todos muito bem delineados – e extrai atuações excepcionais, especialmente das duas atrizes. Kristin, cuja imagem costuma estar ligada a inglesas ricas, esnobes e reprimidas, faz um trabalho bastante diferente daqueles que a tornaram famosa, como em O Paciente Inglês (96) e Quatro Casamentos e um Funeral (94), o que lhe valeu uma premiação da Academia Europeia neste filme – em que ela fala um francês bastante convincente.

Fumando incessantemente e sem nenhum glamour, Juliette, que acaba de sair da prisão depois de 15 anos, não tem condições nem de sonhar com a retomada sua vida como era antes. Começando do zero, ela aceita o mínimo de ajuda da irmã, até poder conseguir um trabalho e manter-se sozinha.

O drama de Juliette desenvolve-se em fogo brando, de uma forma quase subliminar. É bem aos poucos que o público descobre os motivos da prisão e de sua reticência. Por isso, quando a revelação vêm à tona, é de um poder devastador – tanto para os personagens, que guardam esse peso dentro de si por tanto tempo, quanto para o público, ansioso para descobrir o motivo de tanto pesar.

Léa, a irmã caçula, passou o tempo em negação da tragédia do passado e pouco se lembra da infância em comum com Juliette. Suas escolhas, ao longo dos últimos anos, só serviram para afastar ainda mais as irmãs. Dedicada a uma carreira acadêmica, Léa pouco visitou Juliette na prisão. Agora, por tudo isso, a tentativa de reaproximação mostra-se mais difícil, embora necessária para a transformação das duas. A câmera acompanha Juliette o tempo todo, quase sempre em closes no rosto da atriz. E embora a personagem esteja cercada por pessoas, sua linguagem corporal a mantém distante de todos – inclusive da irmã, do cunhado e das sobrinhas com quem mora. Juliette é a personificação do isolamento e a materialização de uma culpa interna. Mesmo quando um colega de trabalho da irmã, Michael (Laurent Grévill, de “Atrizes”), tenta aproximar-se dela, Juliette mostra-se distante, resistindo a entregar-se novamente a qualquer tipo de relacionamento. Quando finalmente, o passado de Juliette vem à tona, é um momento de catarse tanto para as duas irmãs, quanto para o público. Claudel, um acurado observador dos mecanismos familiares, prova com Há Tanto Tempo Que Te Amo que as prisões interiores podem mais opressoras do que as instituições penais da vida real.

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