19/07/2026
Documentário

Coração Vagabundo

Esse documentário segue de perto o músico Caetano Veloso em sua turnê para divulgar o disco “A Foreign Sound” nos EUA e Japão. Além disso, o cantor e compositor comenta sua visão de mundo e sua opinião sobre diversos assuntos, como música e religião.

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Este documentário, que se propõe a ser “uma viagem musical com Caetano Veloso”, abre com a tela em negro e um letreiro explicando que em 1968, o músico foi vaiado durante uma apresentação de Proibido Proibir num festival. No áudio, ouve-se o som original da época: o cantor discutindo com o público e dizendo que eles não entendiam nada. Sua voz é quase encoberta ao som de tantas vaias.

Dessa abertura, o diretor corta para o presente, quando, num quarto de hotel, Paula Lavigne, ex-mulher de Caetano e produtora do filme, “chama” a câmera para a segui-la e abre a porta do banheiro, onde o músico está nu, tomando banho. Certamente, o diretor Fernando Grostein Andrade queria que essa nudez fosse tanto real quanto metafórica para seu documentário. Mas não é bem isso o que se vê na tela.

Por mais que a câmera o acompanhe incessantemente durante a turnê americana e japonesa para a divulgação do álbum A Foreign Sound, o filme se ressente da falta de foco ao longo de seus 60 minutos. Ninguém espera que um documentário tão curto desvende a alma e a obra de seu retratado, mas um pouco mais de profundidade não faria mal algum a Coração Vagabundo.

O Caetano contestador, que bate boca com o público para defender sua música, está apenas na memória registrada na abertura do filme. Agora, Coração Vagabundo mostra que ele é um sujeito pacato, que sorri e interage com japoneses pelas ruas de Tóquio ou na porta de um templo budista. A sombra do Caetano de 1968 é projetada muito discretamente, quando perguntado sobre uma polêmica envolvendo o músico Hermeto Pascoal e os elogios do baiano para a música norte-americana que, segundo ele, “é a melhor do mundo”.

O que há de melhor em Coração Vagabundo são as cenas do show de Caetano, quando canta músicas como Terra, com arranjos diferentes dos originais. As apresentações em Nova York, Tóquio e Kyoto são cercadas de uma aura de glamour – mas não há um contraponto de como foi essa mesma turnê no Brasil. Nos bastidores, Caetano é tietado por brasileiros ilustres no estrangeiro, como Gisele Bündchen, e outros famosos no país, como a atriz Regina Casé.

A proposta declarada de Grostein Andrade era fazer um documentário intimista, um retrato quase em primeira pessoa do músico. Mas não se pode esquecer que a produtora do filme é a ex-mulher de Caetano, Paula Lavigne, e que o fim do casamento aconteceu durante as filmagens. A câmera flagra alguns episódios dessa separação, como o músico pedindo o telefone de Gisele Bündchen, numa possível brincadeira, embora comentários dela deem margem a dúvidas.

Entre os entrevistados, aparecem os fãs internacionais do músico, como David Byrne e o cineasta espanhol Pedro Almodóvar, que passa mais tempo elogiando a produtora Paula Lavigne do que comentando sua relação com Caetano - que aparece numa cena de seu longa Fale Com Ela (2002).

Ao contrário de dois documentários recentes sobre músicos, Loki – Arnaldo Baptista e Simonal – Ninguém Sabe o Duro Que Dei, que se aprofundam em seus personagens, Coração Vagabundo é quase um filme institucional. Nele, o que vemos na tela é o Caetano Veloso que todos conhecem, sem muito acrescentar à imagem do mito que carrega e do qual parece não querer se despir.

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