A trama é protagonizada por Camila (Manoela do Monte, que estreia no cinema, depois de vários trabalhos na televisão, como Malhação), filha de uma família decadente que aceita um casamento com um homem mais velho, o capitão Miguel (João Pedro Gil), na esperança de salvar seus pais da ruína.
Como a ação se passa no século XIX, tempo de repressões especialmente para a mulher, o filme insiste em lembrar disso de formas pouco sutis. Camila é espancada pelo marido quando ele descobre que ela não é mais virgem. Como manda a lei religiosa da época, a moça deve ficar presa em casa, sem receber visitas, nem sair. A ela, só lhe resta a sua dama de companhia, Laurinda (Denise Copetti), que também sente uma paixão reprimida por sua patroa.
Os dois Assis Brasil (o diretor e o autor do livro) parecem estar dispostos a cutucar algumas instituições – as óbvias: Igreja e Família. Muito solitária, com a ajuda de sua empregada, Camila planeja se vingar do marido, seduzindo primeiro o sacristão, Bernardo (Rafael Sieg, também de Malhação), por quem sente um desejo carnal, e depois o padre, Ramiro (Paulo Saldanha), por quem acredita sentir um amor espiritual.
Com interpretações nada naturalistas, Manhã Transfigurada nada concede ao seu público. Cada ator está num tom diferente. Manoela acredita estar interpretando uma personagem trágica, não uma heroína romântica. Sieg não sabe ao certo para que lado correr. E Denise, como a empregada, imposta a voz em tom de comédia. Soma-se a isso um sotaque gaúcho forçado –embora o elenco seja mesmo do Rio Grande do Sul.
O filme foi rodado em digital e transferido para película. O processo custou a beleza das paisagens que retrata. Os movimentos de câmera mostram a falta de qualidade técnica do filme quando surgem imagens borradas ou com pouca definição. O tom intimista da história, aliás, pedia mais planos fechados do que grandes panorâmicas dos pampas. Mas perto de tudo o que não faz sentido dentro deste longa, esse é o menor dos problemas.
