Numa obra construída muito mais pelo visual do que pelas palavras, o primeiro signo é a aparência física de Jara. Homem enorme, forte, semblante sério, ele assusta à primeira vista, quando o vemos chegando ao trabalho. Cumpre o turno da noite, é de pouca conversa com os colegas e sempre ouve rock pesado em seu walkman. Um detalhe desmonta a aparência de brucutu – este gigante tem olhos doces. Está mais próximo do chavão “incapaz de matar uma mosca” do que o contrário. É só vê-lo jogando videogame de igual para igual com o sobrinho (Federico Garcia) para ter certeza disso.
A primeira parte da história dedica-se ao retrato da rotina árida de Jara, deslocando-se em ônibus, permanecendo encerrado num cubículo em seu expediente, não tendo muito mais a fazer do que olhar para os monitores, que lhe trazem as imagens das câmeras de segurança do supermercado. Nada parece abalar sua pachorra de ruminante, mastigando bolachas com ar de boi preso no pasto. Até o dia em que descobre Julia (Leonor Svarcas), a nova faxineira.
Ela é jovem, bonita e atormentada pelo gerente implicante quando comete um erro banal – como derrubar, acidentalmente, uma montanha de rolos de papel higiênico. O incidente desperta a atenção de Jara, que passa a segui-la. Primeiro só pelas câmeras, depois, pelas ruas, atuando como um anjo da guarda – como quando ataca, sem que ela veja, um desavisado motorista de táxi que cometeu a imprudência de dirigir à moça comentários obscenos.
A graça do filme está em compartilhar o esforço de Jara para aproximar-se de sua musa, sem nunca ter a certeza do que ele fará ou até se, finalmente, terá a coragem de aproximar-se dela. Há uma tensão subliminar quando surge um rival e Jara acompanha seu encontro com Julia com sentimentos confusos. Por mais que se saiba que o segurança não tem índole violenta, há sempre a possibilidade de que a consciência de sua força física predomine sobre seu temperamento, como aconteceu no incidente com o taxista.
Há muitos outros tons e subtextos, neste filme que exige um engajamento do público para revelar-se mas nunca é cifrado. É a riqueza da simplicidade de um cinema que produz muito poucos filmes por ano, como o uruguaio, mas é capaz de pequenas jóias como esta - e, no passado, o primoroso Whisky, de 2004, em que o diretor Biniez fez uma ponta como ator. Os dois filmes uruguaios, aliás, foram premiados em Gramado. Gigante, com os troféus de melhor ator, roteiro (do diretor Adrián Biniez) e melhor filme latino para a crítica.
