19/06/2026
Drama

O Fim da Picada

No século XIX, Macário mergulha em orgias satânicas. Encontra o demo, sob a forma feminina de Exu-Lebara. Esta o engana e, numa viagem no tempo, abandona-o na São Paulo do século XXI.

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Bebendo na fonte do cinema marginal dos anos 60 e 70 e também em referências mais recentes – Sergio Bianchi, entre elas -, O Fim da Picada se propõe a ser um filme alegórico e perturbador. Revisitando livremente a peça teatral Macário, do autor romântico Álvares de Azevendo (11831-1852), o enredo relê também figuras do folclore e do imaginário popular e se propõe a uma crítica política social. Muitas tarefas e não se dá conta de tudo.

O protagonista é Macário (Ricardo de Vuono), homem do século XIX, flagrado em plena orgia satanista numa praia, no litoral paulista. Closes francos numa vagina deixam clara a intenção de mostrar que não há limites nesta exploração dos sentidos. Macário e seus amigos bebem, transam, se entregam a todo tipo de excessos. O tipo de prática que só pode atrair Satã.

O demo chega sob a forma de mulher, Exu-Lebara, entidade do candomblé, com quem Macário decide seguir viagem, rumo à cidade de São Paulo. Cheia de truques, ela o engana, trazendo-o numa viagem no tempo. Atordoado, ele desembarca na metrópole de quase 20 milhões de habitantes. Neste cenário, o homem devasso do século XIX perde sua empáfia, tornando-se um vagabundo, um quase mendigo, sem nada entender.

Nas ruas cheias de automóveis, a luta de classes prospera. Um garoto de rua, ao se aproximar de um carro de madame, leva tiros e perde um pedaço da perna. Magicamente, vai tornar-se o Saci, perversamente brincalhão, que encontrará Macário, juntos mergulhando no caos sem esperança de redenção.

A semelhança com Bianchi emerge de detalhes, como a cena em que a madame dentro do carro se preocupa mais em se exercitar do que com seu filho, que está no banco de trás. Uma ironia perversa aparece em outras sequências, como aquela em que crianças lavam o carro sujo de sangue. Este fragmentos têm seu interesse, mas não somam um todo. O filme padece de uma grande falta de organicidade.

Estreando apenas em São Paulo, depois da passagem por alguns festivais, O Fim da Picada é a primeira distribuição do projeto Cine Cult, da rede Cinemark – que atenua, assim, sua marcada vinculação com o cinemão comercial. Mas ainda é pouco. Afinal, o filme só fica em cartaz numa sessão única, no ingrato horário das 14h, nas salas da rede vinculadas ao projeto, por dez semanas. Seria ótimo se a iniciativa se expandisse com mais filmes e horários. Só assim se diversificará o gosto do público.

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