O documentário Waldick, Sempre no Meu Coração, estreia competente de Patrícia Pilar na direção, tem punch de road movie. O próprio Waldick dirige uma caminhonete por estradas poeirentas, relembrando trajetos que fez no passado, no auge da fama. Ele volta a cidades nordestinas e reencontra amigos e seu público fiel em shows modestos em clubes e casas noturnas. Quem está ali são pessoas simples como ele, que se identificam com as letras sofridas de um homem fracassado. E, para nossa surpresa, a alma do poeta acaba se revelando seu próprio corpo. Aquele homem que conta ao amigo suas desilusões amorosas na verdade é ele próprio. "Só faço música quando tenho motivo. Às vezes, a gente tem que fingir que é feliz e isso doi. Mas a gente se acostuma a mentir para a gente mesmo", revela numa entrevista dada a uma jovem repórter que, provavelmente, conhece pouco da sua história.
História que começa com sua vinda para São Paulo, nos anos 1950, em busca de realizar o sonho de se tornar cantor, mas que passou antes pelo exercício de profissões humildes e duras, como as de motorista de caminhão e feirante. "A vida do poeta é uma tremenda aventura", diz.
Com mais de 80 discos gravados e inúmeros sucessos emplacados nas rádios e programas de TV populares ("Eu Não Sou Cachorro, Não", por exemplo), relacionamentos com 14 mulheres ("Nenhum deu certo", confessa de olhos baixos), mulherengo confesso ("Ninguém é de ninguém", brinca, dizendo que gostaria de ser o autor do bolero consagrado por Altemar Dutra), Waldick se pergunta: "Sou famoso, e daí?" E encerra como se finalizasse a letra de uma nova canção: "Onde está esta tal felicidade?"
Patrícia deixa o poeta popular à vontade e transforma sua câmera em testemunha e confidente de seu personagem. Num momento comovente, em uma casa noturna de São Paulo, ele conversa com o filho e dá para perceber que os dois tinham uma relação difícil, mas que já parece superada. Waldick está visivelmente embriagado e faz algumas cobranças ao rapaz, de histórias mal resolvidas no passado.
As imagens foram captadas em 2006 e 2007, pouco tempo antes de Waldick morrer (setembro de 2008). No final do filme, a câmera fecha o quadro e mostra seu cuidado em abotoar a camisa e apertar o nó da gravata, cantando "Luzes da Ribalta", de Charles Chaplin ("para que chorar o que passou, lamentar perdidas ilusões..."). Ele parece estar se preparando para entrar em cena. Mas, na verdade, está saindo.
