18/07/2026
Documentário

Waldick, Sempre no Meu Coração

Um dos cantores mais populares do país, Waldick Soriano - morto em setembro de 2008 - é o foco desse documentário dirigido por Patrícia Pillar.

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Waldick Soriano, morto em 2008, não concordava quando rotulavam suas músicas de cafonas ou bregas. Mesmo hoje, quando a palavra brega parece até garantir algum status a um gênero musical que sempre foi olhado com preconceito pela crítica e por boa parte do público de classe média. Hoje se ouve Reginaldo Rossi impunemente, com um certo ar de deboche. Waldick, no entanto, se autoproclamava um compositor romântico. E o documentário que o homenageia, dirigido por Patrícia Pillar, parece dar tardiamente razão ao artista. Ele não era um romântico como Roberto Carlos, mas sabia também mexer com o coração das pessoas mais humildes espalhadas pelo País. Ou melhor, sabia apunhalar corações vítimas de desilusões amorosas.

O documentário Waldick, Sempre no Meu Coração, estreia competente de Patrícia Pilar na direção, tem punch de road movie. O próprio Waldick dirige uma caminhonete por estradas poeirentas, relembrando trajetos que fez no passado, no auge da fama. Ele volta a cidades nordestinas e reencontra amigos e seu público fiel em shows modestos em clubes e casas noturnas. Quem está ali são pessoas simples como ele, que se identificam com as letras sofridas de um homem fracassado. E, para nossa surpresa, a alma do poeta acaba se revelando seu próprio corpo. Aquele homem que conta ao amigo suas desilusões amorosas na verdade é ele próprio. "Só faço música quando tenho motivo. Às vezes, a gente tem que fingir que é feliz e isso doi. Mas a gente se acostuma a mentir para a gente mesmo", revela numa entrevista dada a uma jovem repórter que, provavelmente, conhece pouco da sua história.

História que começa com sua vinda para São Paulo, nos anos 1950, em busca de realizar o sonho de se tornar cantor, mas que passou antes pelo exercício de profissões humildes e duras, como as de motorista de caminhão e feirante. "A vida do poeta é uma tremenda aventura", diz.

Com mais de 80 discos gravados e inúmeros sucessos emplacados nas rádios e programas de TV populares ("Eu Não Sou Cachorro, Não", por exemplo), relacionamentos com 14 mulheres ("Nenhum deu certo", confessa de olhos baixos), mulherengo confesso ("Ninguém é de ninguém", brinca, dizendo que gostaria de ser o autor do bolero consagrado por Altemar Dutra), Waldick se pergunta: "Sou famoso, e daí?" E encerra como se finalizasse a letra de uma nova canção: "Onde está esta tal felicidade?"

Patrícia deixa o poeta popular à vontade e transforma sua câmera em testemunha e confidente de seu personagem. Num momento comovente, em uma casa noturna de São Paulo, ele conversa com o filho e dá para perceber que os dois tinham uma relação difícil, mas que já parece superada. Waldick está visivelmente embriagado e faz algumas cobranças ao rapaz, de histórias mal resolvidas no passado.

As imagens foram captadas em 2006 e 2007, pouco tempo antes de Waldick morrer (setembro de 2008). No final do filme, a câmera fecha o quadro e mostra seu cuidado em abotoar a camisa e apertar o nó da gravata, cantando "Luzes da Ribalta", de Charles Chaplin ("para que chorar o que passou, lamentar perdidas ilusões..."). Ele parece estar se preparando para entrar em cena. Mas, na verdade, está saindo.

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