Considerado o filme mais caro da história do cinema mexicano, a bagatela de US$ 6,5 milhões, se considerados os padrões de orçamento americanos, Arranca-me a Vida é um desses projetos cinematográficos ambiciosos que tardam anos para ficarem prontos. No caso, pouco mais do que cinco, devido à dificuldade de seu diretor, Roberto Sneider (de Dos Crímenes, inédito comercialmente no Brasil), em atrair investidores para a produção.
A complexidade de realizar um filme de época e de transpor para as telas o livro homônimo escrito por Ángeles Mastretta – que também assina o roteiro – pode explicar as dificuldades. No entanto, a pouca experiência na direção de seu realizador, diga-se, também foi crucial na hora de conseguir bons investidores.
Narrado em primeira pessoa, o filme traz as memórias de Catalina Guzmán (Ana Claudia Talancón, de O Crime do Padre Amaro), que, com pouco mais de 15 anos se casa como poderoso general Andrés Asensio (Daniel Giménez Cacho, de Má Educação). Em meio às convulsões políticas da década de 1930, no México, a jovem entende o submisso papel social da mulher em seu país, fato que tentará combater.
De forma transparente, Andrés é a personificação das repressoras leis patriarcais de gênero do início do século: cruel, intolerante e machista. Os conflitos entre estes dois personagens tornam-se a tônica da história, cujo pano de fundo é a própria construção política do México.
Como abarca muitos anos da vida de seus protagonistas, não deixa de ser previsível o que se vê durante a projeção. Desde o início entende-se que irão casar, brigar, ter filhos, amantes, porque mostra apenas os principais momentos de suas vidas. Um exemplo semelhante ao visto em Amor nos Tempos do Cólera (de Mike Newell), que não expressou a força e a profundidade da obra de Gabriel García Márquez, mas sim uma sequência de situações dramáticas.
Ao final da sessão, entende-se porque Roberto Sneider demorou tanto para estrear seu filme. Não deve ter sido fácil elaborar a competente produção de época apresentada, que usa belezas históricas como a Catedral de Puebla (centro-sul do país) e o Palácio de Belas Artes (na capital), a seu favor. Locais bem aproveitados também pela fotografia do espanhol Javier Aguirre, colaborador de Woody Allen em Vicky Cristina Barcelona.
Pode-se entender que Catalina é uma heroína, que simboliza a condição e conquistas femininas até meados do século passado. Da mesma forma, é possível reconhecer em Andrés todos os estereótipos do homem latino-americano. Graças ao excelente trabalho do casal Ana Claudia e Daniel, esse antagonismo funciona, seja para o drama, seja para o humor. E essa é a grande conquista de Arranca-me a Vida.
