20/07/2026
Documentário

Alô, Alô, Terezinha

Apresentador de televisão que fez época com seus programas de calouros, Abelardo Barbosa, o Charcinha, é revisitado neste documentário. Mas o foco principal está nos depoimentos de ex-calouros, chacretes e artistas que frequentavam seus programas.

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Jornalista e crítico de cinema por formação, o carioca Nelson Hoineff estreou em cinema com o documentário O Homem Pode Voar, sobre o pioneiro da aviação Santos Dumont. Ultimamente, está se especializando em documentários sobre personalidades polêmicas. Primeiro, veio Caro Francis, já exibido em festivais como o de Paulínia (SP), em julho de 2009, e ainda inédito no circuito comercial. Seu protagonista é o também jornalista, Paulo Francis, falecido em 1997, famoso por colecionar inimigos por seu estilo agressivo e controvertido.

Este ano, Hoineff assinou outro documentário, Alô, Alô, Terezinha, que examina um dos maiores fenômenos da televisão brasileira, o apresentador Abelardo Barbosa (1917-1988), o Chacrinha. Em sua primeira exibição pública, no Cine-PE, em abril, o documentário conquistou os prêmios de melhor filme, tanto para o júri oficial quanto para o júri popular, além do de melhor montagem. Agora, estreia em circuito nacional.

Na prática, o filme é não apenas sobre Chacrinha, mas tanto ou mais sobre os personagens de seus programas – que foram exibidos em várias emissoras, entre o final dos anos 50 e meados dos anos 80. E, na forma como opta por retratá-los é que o filme se mostra extremamente discutível.

Hoineff demonstra que, em termos de ética cinematográfica, é o extremo oposto de outro documentarista, o veterano Eduardo Coutinho, que pauta trabalhos como Edifício Máster, Peões e Jogo de Cena por um grande respeito aos seus entrevistados. O diretor de Alô, Alô, Terezinha, ao contrário, expõe as chacretes e ex-calouros do programa não raro por um ângulo francamente escandaloso e vexatório.

Exemplos disso não faltam. Ao entrevistar artistas que frequentavam assiduamente os programas de Chacrinha – Jerry Adriani, Wanderley Cardoso, Fábio Jr. e outros -, o cineasta revela-se mais interessado em saber se eles iam ou não para a cama com as chacretes. Para elas, também sua principal pergunta é com quem dormiram.

Com as chacretes, a exposição vai mais longe. Com uma delas, hoje senhora e gordinha, o diretor insiste para que experimente o maiozinho justo que usava na TV décadas atrás, documentando todo o seu esforço inútil. A mais famosa delas, Rita Cadillac, é entrevistada na cama por um fã. A situação mais constrangedora, no entanto, é quando se mostra outra delas, a índia Potira, nua numa fonte em frente a um restaurante em que ela trabalha – o que seria, segundo o filme, um “antigo sonho” dela mesma.

Em debates em festivais, o diretor tem-se defendido, dizendo que apenas reproduz o universo de humor cruel que vigorava dentro dos próprios programas de Chacrinha. A favor deste argumento, são vistos no documentário trechos em que o apresentador questionava a opção sexual de um candidato e buzinando sem dó diversos desafinados. Um deles revela seu trauma até hoje, derramando lágrimas ao lembrar dos vexames sofridos.

Infelizmente, Alô, Alô, Terezinha perde uma ótima oportunidade para refletir de maneira mais distanciada e equilibrada sobre esse passado da TV brasileira. E nem mesmo consegue repetir um dos bordões mais famosos do Velho Guerreiro: “Eu não vim para explicar, eu vim para confundir”. O filme de Hoineff só confunde quem já está confuso. E, justiça seja feita, nunca pretendeu explicar nada.

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