O drama Polícia, Adjetivo, de Corneliu Porumboiu é mais uma prova de que o cinema romeno vai muito bem, obrigado. Tal qual os premiados 4 meses, 3 semanas e 2 dias (Palma de Ouro em 2007), de Cristian Mungiu, e A Leste de Bucareste (Camera D’or em 2006), filme de estreia de Porumboiu, esta nova produção também tem como grande mérito colocar em sintonia forma e conteúdo, discutindo não apenas a linguagem cinematográfica, como também os resquícios do passado recente – o regime comunista – no presente do seu país.
Escrito e dirigido por Porumboiu, Polícia, Adjetivo é uma espécie de anti-thriller de ressonância ética e moral. Ao centro está um policial que se debate com um dilema: rejeitar ou cumprir as ordens do seu superior, seguindo sua consciência. Disfarçado, Cristi (Dragos Bucur) investiga um adolescente, Victor (Radu Costin), na cidade de Vasilu, para descobrir como o rapaz consegue drogas.
Seria uma investigação corriqueira, sem muitos danos para Victor, não fosse o fato de Cristi presenciar o jovem oferecendo cigarros para os amigos. Aí surge um dilema que consome o policial: seu superior, Nelu (Ion Stoica), quer que o rapaz seja preso, mas Cristi se recusa a cumprir a ordem. Para ele, em breve as leis da Romênia serão mudadas – como as dos demais países europeus – e os atos de Victor não serão mais um crime. Então, porque estragar a vida de um rapaz por algo tão pequeno?
Em torno de uma trama tão simples, mas de implicações complexas, Porumboiu constroi uma pequena obra-prima, aliando sua narrativa ao visual, ou seja, fotografia, trabalho de câmera e montagem. Em planos nos quais aparentemente nada acontece, os detalhes são de extrema importância, pois têm muito a dizer. As mesmas imagens parecem repetir-se diversas vezes em frente à câmera, mas olhares mais atentos percebem o quanto mudam a cada cena.
A estagnação das vidas, a falta de perspectivas, ao lado da esperança de que isso mude, de que a Romênia entre em compasso com o restante da Europa, impregnam o filme. A vida de Victor é sem graça, sem as excitações comuns da juventude, como a de Cristi também. Recém-casado com Anca (Irina Saulescu), seu cotidiano se resume ao trabalho e algumas horas em casa com a mulher, com quem não tem muito o que conversar. A estagnação da cidade de Vasilu, aparentemente parada no tempo, é o retrato do país que ainda tenta curar as feridas do regime totalitário.
Construído num ritmo próprio, Polícia, Adjetivo é um filme que exige do público paciência e concentração. O suspense cresce de forma sutil em passos propositalmente lentos, mas, ao final, a velocidade da narrativa, a forma como os fatos acontecem e são apresentados fazem tanto sentido que é impossível pensar numa outra forma de narrar e concluir a história.
Como o protagonista, Cristi, a câmera é observadora e evita fazer julgamentos, preocupando-se apenas em reportar os fatos, como faz o policial. O clímax, envolvendo Cristi, um colega de trabalho e o capitão Anghelache (Vlad Ivanov, o abortista de 4 meses, 3 semanas e 2 dias), é cinema em sua essência. Enquadramento e direção sustentam a tensão até convergir numa resolução inevitável e, por isso mesmo, poderosa, mostrando a dura herança do passado que a Romênia do presente precisa superar.
Ganhador dos prêmios da imprensa e do júri na mostra Un Certain Regard, no Festival de Cannes, em maio de 2009, Polícia, Adjetivo firma o nome de Porumboiu como um dos mais instigantes do cinema contemporâneo, cuja obra questiona as várias versões de uma mesma verdade, especialmente quando está atrelada a feridas históricas que custam a fechar.
