Paulo (Chico Diaz) é um professor de literatura que vive com sua mulher, Teresa (Maria Padilha), e a filha, Bel (a estreante Isabella Meirelles), num pequeno apartamento na Tijuca, nos arredores da Praça Saens Peña. O dinheiro sempre está apertado, mas eles levam uma vida sem grandes problemas. Quando o professor é convidado a escrever um livro sobre o bairro, os três veem nesse pagamento a possibilidade de mudança.
Teresa decide que está na hora de comprarem o apartamento próprio e começa a andar pelas ruas do bairro em busca de um novo imóvel. Bel e Paulo, porém, precisam dividir o mesmo computador velho – ela para os estudos, ele para o trabalho – o que se torna razão de constantes atritos.
Aos poucos, o roteiro, também assinado por Reis, delineia uma pequena fratura nessa família. São pessoas com interesses distintos que precisam negociar seus sonhos em prol da convivência mútua. No entanto, com a abertura de novas possibilidades, o grupo de personagens encontra novas possibilidades.
Paulo se torna amigo de Macedo (Guti Fraga), um morador de favela, cujo filho foi assassinado na sua frente depois de ter se envolvido com o tráfico. Esse personagem forma um contraponto interessante com o professor. Ele mora no morro, mas é dono de sua casa própria, enquanto o outro, ainda paga aluguel.
Teresa, por sua vez, se envolve com João (Gustavo Falcão), que conhece quando visita, na companhia do marido e da filha, o apartamento que o rapaz está vendendo. A mulher, na verdade, se torna amante do imóvel, mais do que do outro personagem. Estar ao lado dele é uma segurança para não perder a chance de poder comprar esse imóvel quando ela e sua família conseguirem juntar dinheiro suficiente.
É dessa forma, por meio de lugares onde os personagens moram que Reis traça o perfil da classe média carioca distante da badalação de bairros como Copacabana e Ipanema. Na tela, estão suburbanos de bom coração em busca de um lugar para chamar de seu. Ainda assim, esses personagens se recusam a ser definidos por sua moradia. Macedo mora no morro – mas não corresponde ao estereótipo que o cinema concebeu para uma pessoa como ele, por exemplo.
Na contramão desses estereótipos pré-concebidos também estão os dois atores centrais – ambos premiados no CinePE-2009. Diaz e Maria já haviam trabalhado juntos em Os Matadores (1997), e aqui repetem a parceria. No entanto, estão bem diferentes daqueles papéis que tanto o cinema como a televisão insistem em criar para eles.
É de se questionar porque Maria Padilha não faz mais papéis no cinema. Mais conhecida no teatro e na televisão, aqui a atriz tem chance de mostrar a sua versatilidade, interpretando com honestidade uma dona-de-casa suburbana que também trabalha fora de casa para ajudar na renda e se deixa seduzir por um sonho simples – nem tão ambicioso, assim, de ter a sua casa própria. Aqueles acostumados a vê-la em papéis de mulheres ricas e sofisticadas nas novelas e séries da Globo irão se surpreender.
Documentarista experiente, Reis estreia na ficção com esse drama que no CinePE também levou prêmios de atriz coadjuvante (Isabella), diretor e da crítica. Aqui, ele busca um meio-termo entre a ficção e o documental, combinando a narrativa com um registro do cotidiano nas ruas da Tijuca, além de uma entrevista com Aldir Blanc, morador notório do bairro e autor de O bêbado e o equilibrista (em parceria com João Bosco), entre outras. Em seu depoimento, o letrista destaca a Tijuca como a união entre a classe média e o morro. É exatamente esse o viés que Praça Saens Peña procura e consegue achar na maior parte do tempo.
