Esse é o caso do filme Simplesmente Martha. Com sua vida monótona de chef de cozinha, a protagonista é extremamente introvertida, esquivando-se de qualquer tipo de compromisso afetivo mais sério. Com seu mundo limitado, nada além de sua casa e a cozinha de um elegante restaurante francês em Hamburgo, Martha (Martina Gedeck) sente-se mal, mas não consegue modificar seu triste cotidiano. Vê-se aí as cruéis rédeas da solidão. Quanto mais apertam, mais difícil afrouxá-las.
Os nós de sua reclusão só começam a se desatar quando sua irmã solteira morre em um trágico acidente e Martha se vê obrigada a cuidar da sobrinha Linna (Maxime Foerste), de oito anos. E não é nada fácil. Ambas sofrem do mesmo mal. Atadas aos seus próprios sofrimentos, não conseguem se aproximar. O drama desse relacionamento pode levar qualquer um às lágrimas.
Porém, quando se pensa que o filme é apenas um drama sobre pessoas com problemas emocionais, eis que aparece o ator Sergio Castellitto para enfrentar a situação, no papel de um italiano charmoso e bonachão que trabalhará ao lado de Martha na cozinha. Fato abominável para Martha, afinal em uma cozinha só pode haver um gourmet. "É como dirigir um carro com dois volantes", chega a dizer Martha ao seu terapeuta.
Catapultado à fama internacional por seu papel em Concorrência Desleal, Castellitto consegue engrandecer o filme com uma atuação bastante contida, mas essencial para mostrar a química entre os protagonistas. O resultado é uma comédia deliciosa, tal como os pratos degustados pelos personagens.
Certa vez, o dramaturgo americano Tennesse Williams, autor de clássicos como Um Bonde Chamado Desejo (1947), ironizou: "Quando tantos se sentem sós, é egoísmo continuar só sozinho". Muito oportuna para esta ocasião, é a melhor mensagem que Simplesmente Martha pode passar ao seu público. Além, é claro, que uma pessoa é muito mais feliz com o estômago satisfeito.
Cineweb-21/2/2003
