Para quem costuma dizer “tudo o que não é invento é falso”, nada mais natural do que uma “desbiografia oficial”. É o que faz este documentário de Pedro Cezar (Fábio Fabuloso), que mergulha na vida e na obra do poeta matogrossense Manoel de Barros como quem entra numa água cristalina sem pretender perturbá-la, apenas revelar os muitos espécimes que vivem nela fazendo justiça à sua diversidade.
Como fez em seu filme anterior, o perfil de um surfista que não era para consumo exclusivo do clube dos pegadores de ondas, o cineasta convida quem não pertence ao universo da poesia com a mesma desenvoltura de quem já é devoto da obra luminosa de Manoel – que, aos 93 anos, é o mais vendido autor brasileiro do gênero.
Fugindo tanto do “filme poético” como da “cinebiografia”, pragas da solenidade, Só Dez por Cento é Mentira aposta na força visual das palavras de Manoel, trazendo para a tela trechos de seus poemas, apresentados sempre com imagens inesperadas.
Vai mais longe ainda ao convidar um artista plástico, o carioca Marimba, a reproduzir algumas das invenções impossíveis dos poemas de Manoel. Surgem assim um esticador de horizontes, um alicate cremoso e um aparelho de ser inútil...
Embora haja depoimentos – do cineasta Joel Pizzini, da escritora e roteirista Adriana Falcão, do jornalista Fausto Wolff, entre outros -, suas manifestações também fogem do figurino engomado que compromete alguns documentários. Mesmo proclamando sua admiração pela obra do poeta, nenhum deles aparece declamando poemas.
A grande atração, sem dúvida, é o próprio autor dessa obra magnífica que já ocupa mais de 20 livros e será brevemente lançada em conjunto pela editora portuguesa Leya. Ele concede um precioso depoimento de cerca de 40 minutos ao diretor, que aparece intercalado entre as demais imagens do filme e basta para identificar o sorriso grande e a prosa oceânica do escritor.
Manoel não aguenta mais falar muito tempo, mas cada coisa que diz é uma fileira de pérolas raras. Abençoados aqueles que moram em Campo Grande e tem a chance de tocar-lhe a campainha e ser acolhidos para um café e um dedo de prosa – o que acontece mais do que as pessoas imaginam. A todos ele dispensa algumas de suas palavras, que são sua fibra e razão, dele e nossa, de viver.
