08/06/2026
Comédia

O Voto é Secreto

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A urna corre atrás do eleitor em O Voto é Secreto, numa paisagem que lembra muito o nordeste brasileiro. Esse é o segundo filme do iraniano Babak Payami, um desconhecido no circuito internacional que começou a ser conhecido depois do troféu de melhor diretor no Festival de Veneza/2001. Seu trabalho, que foi exibido em São Paulo na 25ª Mostra BR de Cinema, com a presença do diretor, teve a chancela da Fabrica, o braço produtor de cultura da poderosa confecção Benetton, a partir de um argumento do consagrado Mohsen Makhmalbaf, mais com fotografia do já célebre Farzad Jodat (responsável pelas belas imagens de O Balão Branco e O Espelho, de Jafar Panahi).

A protagonista é uma jovem agente eleitoral, encarregada de levar uma urna aos eleitores dispersos numa região remota, num dia de eleição - um procedimento que causa estranheza a platéias de todo o mundo, acostumadas a comparecer por sua conta aos locais de votação. Incumbido de acompanhar a moça, um soldado armado de fuzil simboliza a velha ordem ortodoxa e militarista que, no Irã, ainda enxerga com desconfiança os novos tempos - representados por maior abertura e participação política num contexto em que mulheres, como a jovem, desempenham papéis sociais de maior relevância fora de casa e têm autoridade para dar ordens.

Alternando o foco entre os equívocos de um e do outro, a história encontra o seu equilíbrio, passando seu recado nas entrelinhas de um evidente arcabouço de comédia do absurdo - a começar pela urna que cai do céu, amarrada a um pára-quedas. De um lado, o soldado suspeita de um homem apenas porque este corre no meio do descampado, supondo-o contrabandista. De sua parte, a agente eleitoral esforça-se em sua conquista de eleitores arredios, enfrentando a desconfiança dos camponeses diante do Estado e o machismo de um chefe de família que desejaria votar por todas as mulheres de seu clã, abaladas pelas dúvidas naturais de quem ainda não se acostumou a ter voz ativa ou poder de decisão.

Este confronto entre os dois personagens é conduzido com bastante leveza. Não faltam lições de senso comum e da ancestral sabedoria camponesa por parte do soldado à jovem urbana e escolarizada e vice-versa. Se há uma moral por trás desta história singela e saborosa, é que a nova ordem no velho Irã nascerá de uma conciliação entre todas as visões de mundo. Nada que não se aplique a qualquer outra parte do planeta.

Cineweb-10/5/2002

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