Não deixa de ser curiosa a coincidência da estreia na mesma semana no Brasil de O Livro de Eli e Criação. Visceralmente diferentes em forma e estilo, os dois filmes têm em comum a luta em torno de um livro.
São obras diametralmente opostas as que movem a ação. Em Criação, de Jon Amiel, trata-se de A Origem das Espécies, de Charles Darwin, que é retratado exatamente no momento em que enfrenta os preconceitos da era vitoriana e os seculares dogmas cristãos – e também suas próprias angústias pessoais – para ter coragem de terminar a obra que revolucionou a ciência com a Teoria da Evolução e até hoje tem inimigos ferozes nos criacionistas.
Ficção científica sombria, nos moldes de Mad Max, com um toque de saga de samurai, O Livro de Eli é uma espécie de resposta cristã a essa sede de conhecimento que moveu Darwin e outros cientistas. A situação temporal dos dois filmes é oposta em mais de um sentido. O século 19 de Darwin, uma era de ebulição em que inúmeros conceitos estavam prestes a ser abatidos no limiar do século XX. Em O Livro de Eli, é o futuro obscuro, não muito distante de hoje, num planeta destruído e vivendo o horror da fome e do caos do inverno nuclear.
Nesse contexto desesperador, o homem é lobo do homem, e mesmo um indivíduo ético como o heroi Eli (Denzel Washington) não pode se esquivar a caçar um esquálido gato para a sua subsistência – uma sequência inicial gráfica e impressionante.
Eli anda sempre sozinho neste vale das sombras em que observa à distância, procurando esconder-se, gangues de saqueadores e estupradores dizimando tudo à sua frente. Tranquilo e infalível como Bruce Lee e também como o mais exímio dos samurais, ele sabe sacar uma estratégica lâmina no momento certo e usar sua habilidade em artes marciais. A referência a Bruce Lee procede literalmente – Washington foi treinado para o filme por Jeff Amata, um discípulo de Danny Inosanto, que foi aluno do próprio Lee.
Sem disparar um único tiro, o impávido andarilho solitário desembarca num povoado com toda a cara de cidadezinha do velho Oeste, onde motoqueiros bem armados substituem os caubois. Eli procura ali mais do que o conserto da maquininha que é sua única distração, um surrado walkman, cuja sobrevivência depende agora dos dotes do sr. Fixit (o roqueiro Tom Waits, em mais uma participação saborosa).
A presença do estranho provoca o alvoroço do líder do povoado, Carnegie (Gary Oldman, retomando uma certa malícia maligna que abandonara desde dos filmes da saga Harry Potter). Chefão de um bando de gângsters, Carnegie, quem diria, cultua livros e está precisamente à procura de um – uma Bíblia do Rei James, publicada pela primeira vez em 1611 –, que acredita que possa estar na bagagem que Eli carrega com tanto cuidado.
A partir desse enfrentamento entre Eli e o bandido literato, duas mulheres passam a ter importância na trama – a esposa de Carnegie, Claudia (Jennifer Beals), e especialmente sua filha, Solara (Mila Kunis) que, de um jeito ou de outro, vai colar em Eli e tornar-se uma parceira tão indesejada quanto providencial.
A partir daí, o filme envereda para a sua vocação – muita ação nas estradas poeirentas e uma parada estratégica na casa de dois simpáticos velhinhos, Martha (Frances de la Tour) e George (Michael Gambon), que preservam alguns confortos da destruída civilização, como aparelhos de som e porcelana para o chá. Mas, para o bem de Eli, Solara e sua missão, é bom ficar de olho nestes velhinhos.
Os irmãos-diretores Albert e Allen Hughes voltaram aqui à ativa, depois de 9 anos de ausência, retomando um certo gosto de sangue visto em seu último trabalho antes deste, Do Inferno (2001), uma competente adaptação da graphic novel de Alan Moore e Eddie Campbell em torno de Jack, o Estripador. Mas este novo filme está longe de ter a vibração daquele, embora a pegada seja, em vários momentos, eletrizante.
