03/06/2026
Documentário

Os EUA x John Lennon

Famoso como roqueiro e ex-Beatle, John Lennon passou a dedicar-se ativamente à causa pacifista, especialmente contra a guerra do Vietnã, nos anos 1970. Por conta disso, o governo americano manda espioná-lo e faz de tudo para deportá-lo dos EUA, onde ele viera viver com sua mulher, Yoko Ono.

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O documentário de David Leaf  e John Scheinfeld demorou quatro anos para entrar em cartaz no Brasil. Acabou chegando numa boa hora, quando falta pouco para se completarem 30 anos do assassinato do ex-Beatle, em Nova York.
 
Num tempo de celebridade fácil como o atual, geralmente apoiada na exposição mais vulgar da intimidade, é uma boa oportunidade rever o perfil de um astro de rock que se tornou famoso não só pela qualidade de suas canções e por declarações bombásticas – “somos mais famosos do que Jesus Cristo”, que ele passou metade da vida explicando – mas especialmente por um engajamento político intenso e sincero. É esta última característica o centro deste documentário, que foca a perseguição movida pelo governo do então presidente dos EUA, Richard Nixon, e o chefe do FBI Edgar Hoover, dupla responsável por mandar espionar Lennon e fazer de tudo para deportá-lo daquele país.
 
Como não poderia deixar de ser, o documentário usa e abusa de material de arquivo – e há uma enorme fartura de imagens de Lennon, entrevistado hábil e bom de mídia, além de combatente em prol das causas que ele entendia como progressistas. O que lhe valeu o ódio de Nixon e Hoover foi justamente sua luta contra a guerra do Vietnã.
 
Por onde ia, Lennon atraía atenção. Músicas que fazia, como Give Peace a Chance, viravam hinos na boca de milhares de ativistas em passeatas de protesto por todo mundo – inclusive na porta da Casa Branca. Fora isso, o músico inglês havia decidido morar em Nova York com sua mulher, a japonesa Yoko Ono, ao lado de quem assumiu mais esta persona pública. O governo americano achou que a saída mais simples era expulsar os indesejáveis do país. Além do mais, não gostaram nada quando um concerto organizado por Lennon conseguiu tirar da cadeia um ativista, John Sinclair, condenado a dez anos de prisão por ter passado dois cigarros de maconha. Esse poder de comoção, mais a amizade com ativistas radicais, como Abbie Hoffman, Jerry Rubin e os Panteras Negras, fizeram o resto, ativando o espírito macartista da administração Nixon – que, ironicamente, acabou forçado a renunciar, varrido pelo escândalo Watergate.
 
O filme reconstitui não só a defesa de Lennon – que recorreu a um advogado experiente, Leon Wildes, curiosamente, abraçando uma causa que achava perdida – como a sua época. Amigos como os Panteras Negras Ângela Davis e Bobby Seale, além do escritor Gore Vidal e do apresentador de TV Walter Cronkite, entre outros, são entrevistados hoje, para um balanço daqueles tempos de alta temperatura política. Impossível não pensar que hoje, com a Guerra do Iraque, há mais do que motivo para um movimento pacifista daquele porte. Mas não há um John Lennon de plantão, disposto a fazer canções, promover shows e gastar até o próprio dinheiro pela causa da paz.
 
Embora visivelmente caminhe ao lado de Lennon, o filme não o endeusa, nem santifica. Faz uma ótima crônica de tempos diferentes – mas com inúmeros pontos de contato com os atuais - e oferece material sólido para reflexão.
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