Integrante da geração que hoje tem por volta de 60 anos, o documentarista Silvio Tendler revê os sonhos de sua época e revisita os conceitos de utopia e revolução. Entrevista diversas pessoas, como os cineastas Denys Arcand, Gillo Pontecorvo e Amos Gitai, a ex-ministra Dilma Roussef, o porta-voz Franklin Martins, o poeta Ferreira Gullar e o dramaturgo Augusto Boal, entre outros.
- Por Neusa Barbosa
- 20/04/2010
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Um dos documentaristas mais respeitados do país e dos que mais se dedicam à política – caso de Os Anos JK (80) e Jango (84), dois sucessos inclusive de bilheteria -, Sílvio Tendler, lançou-se, há 19 anos, num ambicioso balanço dos sonhos e decepções de sua geração – aquela que nasceu logo depois da II Guerra Mundial, viveu os movimentos da reconstrução do mundo, das revoluções de esquerda e da contracultura, as guerras de independência na África e na Ásia, a guerra do Vietnã, as ditaduras latino-americanas, a queda do muro de Berlim e a disseminação da globalização e do neoliberalismo, funcionando como um “pensamento único”.
Como percebeu o diretor nestas quase duas décadas, seria infinito pretender esgotar num único filme em todas as movimentações da História neste período. Então, ele se deteve nesta altura e lança o filme Utopia e Barbárie ao debate.
Utopia e barbárie são, para o diretor, dois movimentos complementares, sucedendo-se um ao outro pela história – assim como ao sonho igualitário da Revolução Russa de 1917 seguiu-se o pesadelo do genocídio estalinista, ao projeto do Brasil Novo de JK e Jango, a ditadura militar.
O filme de Tendler é, assumidamente de esquerda, embora tente ouvir posições contrárias. Se abre espaço a que ex-integrantes da luta armada, como Franklin Martins (atual porta-voz do governo Lula) e Dilma Roussef (ex-ministra e candidata presidencial pelo PT), façam a autocrítica e a justificação de seu rumo extremo no passado, também ouve o poeta Ferreira Gullar, um dos mais notórios críticos do atual presidente e nos anos 70 opositor da opção pela resistência armada ao regime militar.
Viajando nestes anos por 15 países, Tendler acumula entrevistas históricas – como a do lendário general Giap, 94 anos, o estrategista vietnamita que derrotou sucessivamente os colonizadores franceses, em 1954, e os invasores norte-americanos, nos anos 70. O bom e velho escritor uruguaio Eduardo Galeano, autor de uma das bíblias para o entendimento do continente, As Veias Abertas da América Latina, além do poeta Amir Haddad, do dramaturgo Augusto Boal, e os cineastas Denys Arcand, Gillo Pontecorvo e Amos Gitai, vêm somar suas posições, revendo os erros e acertos desta geração que tentou mudar o mundo, pelas ideias e pelas armas, e hoje repensa não só os motivos de seus fracassos como tenta entender o mundo em que vivemos agora.
Juntando biografia pessoal com História, Tendler revisita suas raízes judaicas, mesclando à sua análise das utopias o sonho igualitário dos kibbutz de Israel. Esta digressão para o Oriente Médio, no entanto, ajusta-se mal aos demais assuntos tratados, talvez porque não se tenha feito uma amarração mais consistente.
Em todo caso, caudaloso como é de assuntos e personagens, Utopia e Barbárie é um instrumento eficaz para olhar o presente sem tirar os olhos do passado. Outro mérito está em mostrar materiais de arquivo por demais eloquentes – caso do áudio da gravação da tristemente célebre reunião que aprovou o AI-5, em 1968. Por mais que se conheçam, há muito tempo, o teor das posições dos presentes – entre os quais, Delfim Netto e Jarbas Passarinho, ambos a favor do ato de exceção – o som da frase de Passarinho, “às favas com os escrúpulos”, tem o condão de falar mais alto à consciência de um país ainda com tantas dificuldades de olhar para as entranhas de si mesmo.
