Qual é a herança moral deixada aos filhos pelos pais que tiranizaram e massacraram populações inteiras e quase destruíram um país? Como justificar ou entender as atitudes dos pais quando eles são a personificação do que há de pior em uma cultura, em uma nação?
O diretor argentino Nicolás Entel (de Orquesta Típica) tenta responder essa pergunta ao basear seu documentário no retrato de Sebastián Marroquín, ou Juan Pablo, filho do histórico traficante Pablo Escobar (morto em 1993). Durante três anos, acompanhou a vida do rapaz, hoje arquiteto, exilado na Argentina, imerso em lembranças de um passado que ainda está vivo na memória colombiana.
Em meio a imagens de uma vida extravagante de Pablo Escobar, que dominava 80% do mercado mundial de cocaína, Entel mostra um pacífico e solene rapaz contar como o mítico criminoso era um pai amoroso e presente. Repleto de manias, humaniza o contrabandista, mostrando inclusive ações benéficas que Escobar realizava para populações pobres.
Desta forma, percebe-se que a ideia do documentarista não é demonizar o criminoso, o que faria Juan desistir do projeto. Para saber, Entel passou mais de seis meses para convencer o rapaz a participar do documentário, proposta que já havia recebido de dezenas de outros diretores, alguns deles de Hollywood.
Com ricas imagens de arquivo, Pecados de Meu Pai reconstrói os últimos anos da liderança de Escobar – seu Cartel de Medellin – e como finalmente virou um alvo público, apesar de sua forte ingerência na política do país. Mostra com passou de ídolo da população a inimigo do Estado.
No entanto, embora seja competente como documentarista, Entel deixa algumas fissuras em seu trabalho. Mais do que querer as impressões de Juan, Entel cava situações tensas para seu personagem. Em determinado momento, marca um encontro – com a anuência de seu entrevistado – com os filhos daqueles que morreram a mando de Escobar.
Em um ambiente de puro constrangimento, Entel quer mostrar como o reencontro pode acabar com o ciclo de ódio e vingança que existe entre eles e, no fim, com o que ainda persiste na Colômbia. Em uma sala onde todos parecem vítimas, o diretor perde a mão ao querer fazer de seu trabalho algo maior do que o seu próprio personagem.
