20/07/2026
Documentário

O abraço corporativo

Documentário discute a mídia, retratando situações em que informações total ou parcialmente falsas não são devidamente checadas, envolvendo inclusive jornalistas famosos.

post-ex_7
Era uma tarde comum, no ano de 1975. Na redação do jornal Notícias Populares, a buscava-se uma matéria de capa para a edição do dia seguinte. O slogan do tablóide, que pregava “nada mais que a verdade”, incentivou o editor a aproveitar uma nota curta e sem grandes atrativos, sobre uma criança que nasceu com cóccix prolongado e pequena deformação na testa.
 
E assim surgiu a lenda do bebê diabo, que foi destaque durante um mês e alavancou as vendas do periódico sensacionalista, com manchetes que diziam: “Viu Bebê Diabo e Ficou Louca”, “Fazendeiro é Pai do Bebê Diabo” e “Zé do Caixão Vai Caçar Bebê Diabo no Nordeste”.
 
A repercussão da notícia fictícia foi grande e correu o país no boca a boca, tanto que, por muito tempo, as pessoas continuaram lembrando do acontecido e discutindo sobre versões dessa história. É fato que o NP gozava de pouca credibilidade jornalística, mas se a mesma notícia tivesse sido veiculada por meios de comunicação de prestígio, será que os leitores teriam dúvidas sobre sua veracidade?
 
Guardadas as devidas proporções, essa era a questão que absorvia o jornalista e diretor Ricardo Kauffman quando dirigiu o documentário O Abraço Corporativo. Como uma câmera digital e pouca preocupação estética, Kauffman passou cinco anos seguindo os passos do consultor de RH Ary Etnem, representante na América Latina da Confraria Britânica do Abraço Corporativo.
 
Etnem era totalmente desconhecido até produzir um vídeo e disponibilizá-lo no Youtube. Nele, o consultor exibe um cartaz onde se lê: “Dá um abraço?” Foi assim que a mídia se interessou pelo personagem, que virou notícia em revistas, sites, rádios e programas de TV. A fama também lhe rendeu convites para ministrar palestras sobre os benefícios do abraço entre colegas de trabalho, solução para evitar a chamada inércia do afastamento, mazela decorrente do uso excessivo de ferramentas tecnológicas.
 
A trama costura as aventuras do tal consultor de RH com entrevistas de jornalistas como Heródoto Barbeiro, Juca Kfouri, Eugênio Bucci e Bob Fernandes, além de outros como o cronista Contardo Calligaris e o ex-governador paulista Cláudio Lembo. Com boa dose humor, O Abraço Corporativo lança um olhar crítico sobre os meios de comunicação. Em uma dinâmica onde a notícia passa a ter enorme caráter comercial, a verdade dos fatos publicados passa a segundo plano quando o importante é a rapidez em distribuir as informações, uma após a outra.
 
Assim, o jornalismo se aproxima cada vez mais da publicidade e se afasta, proporcionalmente, do que seria sua principal função: a prestação de serviço à sociedade. E é por isso que Ary Itnem ensina: desconfie de tudo, inclusive desse texto que acabou de ler.
 
O filme recebeu menção honrosa na 33ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo.
post