“Cinema é cinema é cinema é cinema. Uma rosa é uma rosa é uma rosa é uma rosa”. Essa é a resposta que a cineasta belga Chantal Akerman dá quando perguntada sobre sua arte no documentário Chantal Akerman, de cá, que estreia no Brasil nessa sexta. À primeira vista parece evasiva, mas quem conhece seus filmes, como “Jeanne Dielman” (1975), sabe que não é tão simples assim explicar sobre o que são, ou racionalizar como são feitos.
O cinema de Chantal – que teve uma grande retrospectiva no Brasil em 2009 – desafia explicações e é, em alguns momentos, um cinema de sentido, daquele que se mergulha no filme, e se esquece o lado de fora, vive-se outra vida dentro da tela. Por isso, é bem acertada a escolha dos diretores Gustavo Beck e Leonardo Luiz Ferreira em deixar o fluxo do discurso dominar o documentário. Sem se preocupar em desvendar a cineasta, ou algo parecido, o filme deixa que Chantal fale, e ela tem muito a dizer.
O filme consiste numa entrevista de cerca de uma hora, com a câmera parada a uma boa distância de Chantal, sem cortes ou movimentos. E durante esse período, Ferreira a entrevista, disseca seu cinema, suas influências, seus gostos. Pode parecer estranho, mas há um propósito nisso: não apenas entrevistar a cineasta, mas fazer um filme ao estilo dela. Se nos primeiros minutos há um grande estranhamento, depois resta o fascínio pela figura e pelas respostas da diretora.
Para quem gosta e conhece o cinema de Chantal, é um mergulho profundo em sua obra, falando de filmes como La Captive” (2000), inspirado em “A fugitiva”, de Proust, o próprio Jeanne Dielman, e o curioso Hotel Monterey (1972). Há uma dissecação esmiuçada, e é exatamente isso que Ferreira e Beck fazem, dotados de uma curiosidade sadia daqueles que estão diante de alguém cujo trabalho admiram e têm a chance de fazer quaisquer perguntas.
Chantal em si, mesmo vista à distância, é uma figura interessante. Articulada, culta e inteligente – isso já se percebe por seus filmes – a cineasta fala de forma clara, sem elaborar teorias mirabolantes ou explicações exibicionistas. Ela vai à essência de seu cinema, comentando aspectos narrativos, técnicos e até emocionais.
A simplicidade aparente de Chantal Akerman, de cá esconde a complexidade desse documentário que seduz pela fala e pela figura que tem ao seu centro. É um filme ousado, e que tem muito a acrescentar aos admiradores do cinema da diretora belga.
