19/07/2026
Documentário

Morro do céu

Morador da pequena Morro do Céu (RS), o adolescente Bruno Storti vive os dilemas da adolescência. Precisa concluir o Ensino Fundamental, decidir que profissão quer e também encarar o primeiro amor.

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Morro do Céu, documentário do gaúcho Gustavo Spolidoro, faz boa companhia a duas excelentes ficções sobre o mesmo tema, a adolescência no Brasil – os recentes e premiados Antes que o mundo acabe, de Ana Luiza Azevedo, e As melhores coisas do mundo, de Laís Bodanzky.
 
O filme de Spolidoro, cineasta com uma longa carreira no curta-metragem e alguma estrada na ficção (Ainda orangotangos), tem mais afinidades com o trabalho de sua conterrânea, Ana Luiza Azevedo, por se passar no interior gaúcho. Mas é uma pequena afinidade, já que Morro do Céu se aproxima de uma juventude bem mais rural. E, pelo fato de ser um documentário, certamente faz escolhas bem diferentes em sua narrativa.
 
O diretor alinha-se ao Cinema Direto e faz-se invisível por trás da câmera, que acompanha quase como uma segunda pele o seu protagonista, Bruno Storti, 16 anos. Morador da pequena Morro do Céu, localidade da serra gaúcha sob influência da imigração italiana, Bruno torna-se o emblema de um ritual de passagem para a vida adulta. Está no limiar dela, com todas as suas incertezas.
 
No momento em que o filme começa, Bruno não deu conta ainda de sair do Ensino Fundamental. Uma de suas angústias é este exame, além da indefinição profissional – ele flerta com a mecânica, mas não está seguro disso – e amorosa. Uma certa garota na vizinha cidade de Cotiporã é objeto de seu desejo. E o celular, como aconteceria com qualquer garoto das maiores cidades do mundo, torna-se a caixa de ressonância de sucessivas mensagens e ligações enviadas mas nem sempre respondidas. Um Carnaval próximo é o deadline desta situação.
 
A câmera de Spolidoro é sensível o bastante para entrar numa intimidade com Bruno que permite cobrir com imagens mesmo seus silêncios, os tempos mortos, os vazios de palavras e ações – que sintonizam com clareza a estreiteza, por vezes, desta vida rural de onde a imaginação e os sentimentos de Bruno esboçam escapar.
Há belas imagens, como as que mostram Bruno e amigos caminhando ao longo dos trilhos do trem – e que evocam filmes sobre outras adolescências, como Conta Comigo (1986), de Rob Reiner. A sequência que acompanha o garoto voltando a pé, no escuro, depois do Carnaval que decide o rumo de seu primeiro romance, é eloquente como poucas. Mais do que acontece em alguns de trabalhos anteriores, nos quais tende a resvalar para um estetismo nem sempre eficaz, aqui Spolidoro revelou-se capaz de uma quase sempre adequada economia narrativa.
 
Integrante do Projeto Vitrine, dedicado à exibição de filmes brasileiros, o longa de Spolidoro será precedido, em seis das oito capitais que o integram  – São Paulo, Rio de Janeiro, Salvador, Porto Alegre, Curitiba, Goiânia e Vitória -, do curta Recife Frio, de Kléber Mendonça Filho (PE), que já foi premiado em diversos festivais, como Brasília e Cine PE. O curta encena uma fantástica onda de clima frio sobre a ensolarada capital de Pernambuco, com todas as suas incríveis consequências sobre o turismo e a população local. No Recife, também integrante do projeto, e em São Paulo, porém, só será exibido o longa Morro do Céu.
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