Esta cinebiografia da escritora britânica Iris Murdoch (1919-1999) encara a façanha, partindo de uma escalação de elenco que, sem exagero, pode ser qualificada como perfeita. Kate Winslet e Judi Dench alternam as diferentes encarnações de Iris na juventude e na velhice com uma correspondência tão perfeita que é quase como assistir a uma partida mágica de tênis numa quadra ideal de interpretações. O mesmo se pode dizer da dupla de atores que se alternam no papel do marido de Iris, o também escritor John Bayley, defendido com a mesma fidelidade amorosa tanto pelo mais jovem Hugh Bonneville quanto pelo maduro Jim Broadbent - dando a Broadbent o Oscar de melhor ator coadjuvante de 2002. Prêmio justíssimo, dada a qualidade do intérprete, visto em Moulin Rouge - Amor em Vermelho e Topsy-Turvy, embora seja o caso de perguntar por que o ator inglês foi indicado como coadjuvante, se ele é o único ator principal possível?
Olhando a história pelo espelho do passado, em que a jovem Iris transborda energia, sensualidade e inspiração literária, é possível compreender a extensão da tragédia que atinge a escritora na velhice, quando o mal de Alzheimer devasta sua lucidez. Nesse quadro em que a artista mergulha vertiginosamente na afasia, cresce a figura do marido. Jovem, Bayley parece alimentar-se de sua energia, especializando-se em ser sua sombra. Velho, quando a mulher adoece e abre mão de sua indiscutível liderança, ele finalmente dá vazão à sua raiva represada, que contém tanto amor por Iris como sempre. No final de contas, sente-se que, sem o halo protetor de Bayley, Iris Murdoch não poderia ter voado tão alto. A melhor imagem da relação entre os dois está na corrida de bicicleta ladeira abaixo, quando a Iris impetuosa e moça acelera sem medo, enquanto Bayley resiste - mas, ao final, deixa-se arrastar pelo irresistível chamado de sua paixão.
Cineweb-17/5/2002
