03/06/2026
Drama

Outubro

post-ex_7
Longa estrada no cinema que se estende hoje entre o finlandês Aki Kaurismaki e o americano Jim Jarmusch, passando pela dupla uruguaia Pablo Stoll e Juan Pablo Rebella e seu impagável Uísque (2004), o clube do minimalismo narrativo acaba de ganhar mais dois sócios: os estreantes irmãos peruanos Daniel e Diego Vega, diretores de Outubro, que venceu o prêmio do júri no Un Certain Regard, em Cannes 2010.
 
Poucos personagens, muitos detalhes, como convém ao estilo. O protagonista é Clemente (Bruno Odar), um solitário e caladão pequeno agiota de um bairro periférico de Lima. Taciturno como um Buster Keaton fora de lugar, ele passa seus dias contando o dinheiro que ganha em sua atividade subterrânea, mas rentável. Nos intervalos, nenhum amigo, nenhuma namorada, pouca diversão. Ele se limita a comer e a fazer sexo com prostitutas, como se estivesse cumprindo obrigações, já que não manifesta, nem numa nem na outra atividade, uma alegria maior.
 
Uma surpresa desmancha a pasmaceira: um bebê é colocado numa sacola de palha em sua porta. Clemente não consegue entender de onde veio, muito menos sabe o que fazer. O primeiro instinto, de desfazer-se dela (trata-se de uma menina), é rapidamente esquecido, depois que um policial que ele consulta lembra-o de que o caso poderia colocar seu nome nos jornais. Por acreditar nisso ou em alguma culpa secreta – como a hipótese de que a garotinha seja filha de uma de suas ligações ocasionais -, Clemente acaba ficando com ela. Com tudo o que isso implica.
 
Primeiro problema – a menina chora, precisa ser alimentada, trocada. O que fazer? A solução aparece sob a forma de uma vizinha bisbilhoteira, Sofia (Gabriela Velásquez). Depois de prestar socorro ao agiota numa emergência de choro da menina, ela é finalmente contratada como babá permanente, mudando-se para sua casa. O sonho secreto da solteirona, que há muito alimenta ilusões amorosas quanto ao vizinho caladão.
 
Uma esperteza do roteiro, igualmente assinado pelos irmãos diretores, é inserir como pano de fundo a curiosa ambiguidade mística comum aos latino-americanos, adotando superstições de qualquer origem ao mesmo tempo que mantendo fervorosamente a fé católica. Frequentadora infalível das procissões em louvor do Senhor dos Milagres, realizadas anualmente em outubro, e fazendo questão de batizar a menina como Milagritos, Sofia não deixa de recorrer a uma estranha poção de amor para Clemente – que inclui o uso de sua própria roupa íntima usada.
 
A visão destas enormes procissões em Lima entram no filme como uma janela documental, que permitem enxergar a ponte entre o microcosmo da inusitada família e uma esfera mais universal. Pensando bem, tirando um detalhe ou outro, Clemente, Sofia e Milagritos poderiam morar em qualquer outro tempo e lugar. A sutil ironia latino-americana dos irmãos Vega é que não. É coisa nossa.
post