21/07/2026
Comédia

O homem do futuro

Quando jovem Zero levou um fora da namorada e ficou frustrado para sempre até o dia em que, acidentalmente, volta ao passado e tem a chance de mudar a sua vida. Porém, as consequências são graves, e ele terá de consertar seu erro.

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Wagner Moura, nos últimos anos, se tornou conhecido por interpretar tipos fortes, como o Capitão Nascimento, que transcendeu o cinema e hoje é um ícone da cultura pop brasileira. Há também o Olavo, vilão da novela Paraíso Tropical que fazia par inesquecível com a garota de programa Bebel, de Camila Pitanga. Outro momento marcante da sua carreira é Naldinho, de Cidade Baixa, e também seu primeiro grande papel no cinema, Taoca, de Deus é Brasileiro. Embora o ator tenha flertado com a comédia, dando toques cômicos a seus personagens, até agora, nunca fez uma comédia pura – como é o caso de “O homem do futuro”.
 
No filme, escrito e dirigido por Claudio Torres (A mulher invisível, Redentor), Wagner é Zero, um cientista um tanto infeliz, um tanto amargurado, que após anos de solidão, por acaso, volta ao passado, a um momento crucial de sua vida que o consumiu por duas décadas, quando foi humilhado por seu grande amor, numa festa da escola.
 
A trama, é claro, é uma fantasia que deve ter cruzado a cabeça de qualquer pessoa: o que fazer com a chance de voltar ao passado para mudar a sua vida? Torres, assumidamente, busca inspiração em clássicos do escapismo, como os filmes da série De volta para o futuro e o romance A máquina do tempo, de H. G. Wells, ou o conto O som do trovão, do americano Ray Bradbury. A tudo isso ele dá um colorido que, se não é novo, ao menos mostra um frescor – especialmente pela interpretação para lá de inspirada de Wagner, que também canta três canções da trilha.
 
A possibilidade é, exatamente, de mudar seu destino, não levar um fora de sua garota, Helena (Alinne Moraes, que está na novela O astro). Porém, como mandam as regras da boa ciência no cinema, uma ação causa uma reação, e a mudança no passado, por menor que seja, transforma todo o futuro. Quando reencontramos o protagonista no futuro (o presente atual) a vida dele não é lá como ele pensou que seria se casasse com Helena.
 
As idas e vindas no tempo permitem a Wagner e seus outros colegas de elenco -- que além de Alinne, incluem Gabriel Braga Nunes (num vilão bem menos perigoso que seu Léo, de Insensato Coração), Maria Luisa Mendonça, como uma empresária, e Fernando Ceylão, o único amigo de Zero – criar três versões de um mesmo personagem. Alguns expectadores mais afoitos podem até buscar alguma espécie de leitura psicanalítica dessa multiplicação dos personagens, mas isso não é necessário, porque a chave do filme está menos na comédia, no caminho que a trama toma a cada mudança de tempo.
 
Em O homem do futuro, Torres deixa de lado o cinismo de sua estreia em longa, Redentor (2004), no qual fazia uma crítica ácida à sociedade brasileira contemporânea, e está mais próximo da comédia e do romance, como em seu trabalho anterior, A mulher invisível (2009). A trama aqui funciona muito bem especialmente por conta de Wagner que é capaz de criar três versões muito distintas do mesmo Zero.
 
Entre Helena e Zero há uma falta de sincronia amorosa, e, nisso, todo o filme pode ser visto como uma grande metáfora para o que querem as mulheres e os homens. Os dois personagens nunca estão em sintonia. Quando ele quer ficar com ela – na primeira versão, aquela oficial da história – ela aceita uma proposta para ser modelo, e quando ele volta no tempo a resolução é outra, e depois outra. No fundo, o filme parece dizer que estaremos sempre descontentes com algumas coisas e contentes com outras. Nesse caso, única coisa a se fazer é deixar a vida seguir seu curso natural.
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