Dando sequência a um projeto que investiga pessoas que vivem ‘á margem de algo’, o documentarista Evaldo Mocarzel (Do luto à luta) fez À margem do lixo que acompanha a rotina e as lutas sociais e trabalhistas de catadores de material reciclável da cidade de São Paulo. A série de filmes ainda inclui À margem da imagem (03) e À margem do concreto (06).
Catadores de material reciclável – seja um grupo ou personagens individuais – são o centro de alguns documentários recentes feitos no país. Especialmente a produção inglesa Lixo Extraordinário, que tinha como foco o trabalho do artista plástico Vic Muniz. Naquele filme, os catadores são uma espécie de coadjuvantes (muito embora roubem a cena várias vezes). No filme de Mocarzel, no entanto, são o foco. Seus dramas individuais somam-se aos problemas da classe e formam um painel humano e social de uma questão.
O documentário, porém, consegue uma expansão que vai além do individual. Qual a relação dos catadores com a cidade? Sim, eles fazem um trabalho necessário, pouco reconhecido e mal remunerado. Mas o que eles representam para São Paulo? Por outro lado, como São Paulo – leia-se a classe média – os vê ? Num discurso politicamente correto, fala-se sobre a importância e necessidade deles, mas, na prática não é bem assim que funciona. Desrespeito moral e físico – não é raro ouvir xingamentos ou carros passarem quase por cima dessas pessoas – acontece a todo momento.
Mocarzel só perde um pouco a mão quando tenta ser panfletário demais e esfregar um discurso na cara do público. A posição dele é altamente válida, mas poderia abordá-la de forma mais sutil. Assim como as imagens das indústrias nas quais os materiais recolhidos são reciclados. São cenas bonitas, mas um tanto avulsas no filme. A fluidez na montagem – assinada por Willem Dias – algumas vezes é quebrada por essas cenas.
