Um tema sempre em pauta: a disputa de terras indígenas. Tanto na época em que se passa a trama de Xingu (década de 1940) até os dias atuais – como bem retratado no documentário Vale dos esquecidos. O filme é dirigido por Maria Raduan, documentarista estreante que, deixa claro desde o início, é filha de fazendeiros e cresceu num meio parecido com o ambiente retratado em seu longa.
Por décadas conhecido como "o maior latifúndio do Brasil", a fazenda Suiá-Missu, que ocupou 1.5 milhão de hectares no Mato Grosso, era terra dos índios Xavantes, que foram de lá tirados na década de 1960. Desde então, o local passou pelas mãos de diversos proprietários e grupos rivais – posseiros, grileiros, sem-terra e fazendeiros. As longas disputas na justiça não resolveram a questão, e a violência tornou-se uma constante, tanto quanto as queimadas. Um impasse é criado em 2010, quando a justiça determina que as terras pertencem aos indígenas, mas os fazendeiros não saem da região.
Mesmo familiarizada com a questão, Maria investiga com a curiosidade de quem se depara com a disputa pela primeira vez – e também se indigna. Vale dos esquecidos é o retrato dessa indignação, que não é apenas dela – deveria ser também de qualquer pessoa de bom senso. A diretora não se esquiva e vai fundo na questão, falando com líderes indígenas e religiosos, pequenos e grandes fazendeiros.
Em meio ao fogo cruzado, o elemento estranho parece ser o norte-americano John Carter que, apaixonado pelo Brasil, mudou-se para a região há cerca de uma década. Como ele mesmo diz, tenta lidar com a situação da forma legal e sem causar problemas para seus vizinhos (sem-terra, índios, latifundiários), mas nem sempre isso é possível. A sua incompreensão traduz a de todos nós.
