A beleza para Anna (Micaela Ramazzotti, ) não chega a ser um fardo, mas é causa de problemas. Especialmente aqueles que começaram décadas atrás, quando numa festa, em sua vila litorânea, ela é coroada Miss Mama. Num primeiro momento, os assobios e aplausos são divertidos, fazem carinho ao ego. Mas quando as palavras e gestos se tornam vulgares, sua estrutura familiar mostra rachaduras. Esse é o ponto de partida da comédia dramática A primeira coisa bela.
O filme do italiano Paolo Virzi acompanha Anna e seu casal de filhos ao longo de quase quatro décadas. Indo e voltando no tempo, retrata uma Anna juvenil, abandonando o marido (Sergio Albelli) e tentando refazer sua vida com seus filhos, entrando em relacionamentos sem futuro e enfrentando acusações sobre sua conduta. No presente, a personagem é interpretada por Stefania Sandrelli (O Jantar), doente terminal, morando numa clínica e tentando reatar a relação com o filho, Bruno (Valerio Mastandrea), professor universitário viciado em drogas.
Virzi, que assina o roteiro com mais dois escritores, desconstrói a relação familiar a cada cena do passado para, mais tarde, reconstruí-la. É um trabalho delicado que arma uma teia entre o passado e o presente, que repercute e, às vezes, renega aquilo que os personagens viveram. Se, nesse sentido, não há grande novidade, por outro lado, o diretor atinge o equilíbrio entre o emotivo e o cômico, sem nunca pender para extremos.
Mais do que uma justificativa do passado, o presente é o desenvolvimento natural dos personagens, suas mudanças ou reafirmações. Anna, mesmo com a saúde debilitada, não mudou, é extrovertida, cheia de amor para dar e tentando, a todo custo, agradar aos filhos, sem abrir mão de sua individualidade. Estes, por sua vez, parecem ter se retraído por acompanharem, ao longo da juventude, o comportamento da mãe e, consequentemente, têm dificuldades nos relacionamentos amorosos. Bruno não consegue assumir a seriedade de um relacionamento. Já sua irmã, Valeria (Claudia Pandolfi), apesar de aparentemente bem casada, mantém um romance sério com seu chefe.
A primeira coisa bela evolui como uma saga familiar em tom intimista. O escopo temporal permite conhecimento de várias histórias desses personagens, e o desenvolvimento do filme dá conta de criar uma personalidade bem delineada para cada um deles – até para aqueles que aparecem menos na trama, como é o caso de Cristiano (Paolo Ruffini), filho de um advogado para quem Anna trabalhou, que, no fim, é um dos mais engraçados do filme.
A trilha sonora é praticamente um elemento narrativo. A começar pela canção que empresta o título ao longa – “La prima cosa bella”, sucesso italiano do começo da década de 1970 (quando começa a história) –, chegando à banda de rock contemporânea de Livorno (onde se passa boa parte da trama), Bad Love Experience.
O retorno de Bruno para a região onde nasceu e cresceu é um acerto de contas com seu passado e com sua mãe. Este é, no fundo, um filme sobre amadurecimentos – mesmo que a duras penas, ou mesmo que tardio.
