23/06/2026
Documentário

Muito além do peso

Documentário focaliza a obesidade infantil, citando números alarmantes de consumo de refrigerantes e alimentos não saudáveis no Brasil. Aponta-se a responsabilidade não só de pais e professores, mas também das indústrias alimentícias, que estariam sonegando dados aos consumidores.

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Provavelmente, um dos dados mais estarrecedores que a diretora e roteirista brasileira Estela Renner aponta em seu documentário sobre obesidade infantil, Muito Além do Peso, é o consumo de refrigerantes por crianças com menos de um ano: 56% delas o fazem no País. O alerta simboliza algumas das principais premissas da produção: a alta e precoce ingestão de açúcar, a mudança dos hábitos alimentares, a pouca informação dos pais, o bombardeio de propagandas e a clara predisposição das novas gerações serem ainda mais obesas.

Estes não são os únicos pontos explorados pela diretora, que se vale de uma série de entrevistas em que especialistas, nacionais e internacionais, analisam em diferentes ângulos não apenas as consequências do sobrepeso infantil, mas também suas origens econômicas e sociais. Compara-se também o contexto brasileiro com o internacional, indicando claramente que a doença já se transformou em pandemia. 

Na esteira dos problemas, não são poupadas as grandes empresas de alimentos e bebidas (todas as marcas são citadas nominalmente), acusadas de omitir informações do consumidor, manter perversas estratégias de propagandas endereçadas a crianças e serem irresponsáveis sobre os resultados de suas ações. Uma das fontes ouvidas afirma que essas empresas são como traficantes, que viciam as crianças para que sejam dependentes por toda a vida.

Apesar de utilizar algumas ideias já mencionadas em produções internacionais, como as usadas pelo chef e militante inglês Jamie Oliver – quando questiona crianças sobre a aparência dos legumes e frutas em Jamie’s Food Revolution – , é no depoimento das crianças que o filme se afirma. 

Ao se colocar também como personagem, Estela Renner acentua o esforço para ganhar a confiança daqueles que sofrem todos os estigmas por sua obesidade: crianças cujos exames médicos poderiam se confundir com o de idosos enfermos. E elas mostram todo o prazer que sentem em beber refrigerantes, comer hambúrgueres, batatas fritas e bolachas –  apenas um pacote delas equivale a devorar oito pães franceses  – em uma vida sem exercícios físicos. “Temos apenas aula teórica de educação física na escola”, uma delas chega a afirmar.
 
Pela severidade do problema, assertividade em sua edição e o didatismo de seu roteiro, o documentário poderia também ser muito útil em ações educativas. Afinal, como sustenta o filme, 33% das crianças brasileiras são obesas, sendo que quatro de cada cinco delas deverão manter-se nessa condição até o fim de uma vida que tem tudo para ser, também, mais curta.  
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