19/06/2026

30 anos após o final da II Guerra, o cineasta francês Claude Lanzmann percorre alguns dos cenários onde ocorreu o extermínio de judeus, em campos como Auschwitz, Treblinkal, Sobibor e outros. Contando com a participação de vários sobreviventes e também de ex-funcionários e oficiais nazistas, e gastando cerca de 12 anos na compilação do material, o diretor consolida um dos mais contundentes e completos documentos sobre o funcionamento de uma máquina da morte de proporções inéditas na História.

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O cineasta francês Claude Lanzmann lançou-se, em Shoah, a uma tarefa maior do que a vida: filmar o infilmável, falar do indizível. Franco-judeu nascido em 1925, ele lutou na Resistência Francesa e foi jornalista na revista Temps Modernes – fundada por Jean-Paul Sartre – bem antes de devotar-se ao documentário que consumiu 12 anos de trabalho, a partir de 1973, e gerou 300 horas de material bruto.
 
A construção de Shoah obedece a um critério preciso e rigoroso. Lanzmann dispensa materiais de arquivo, filmando diretamente em diversos dos locais onde se perpetrou o massacre de milhões de judeus, em campos como Auschwitz, Treblinka, Sobibor, Chelmno, Belzec e suas imediações, contando com a participação de diversos sobreviventes. Alguns deles empreendem uma visivelmente dolorosa jornada de volta a estes locais onde viveram as experiências mais extremas de suas vidas. Seus relatos diante da câmera atenta de Lanzmann constituem alguns dos momentos mais extraordinariamente eloquentes da história do documentário – caso de Simon Srbenik, o “menino-cantor” de Chelmno, e Filip Müller, judeu tcheco sobrevivente a cinco liquidações em Auschwitz.
 
Não há como escapar ileso emocionalmente aos depoimentos destes sobreviventes, que reconstituem com uma nítida riqueza de detalhes o que foi “ter estado lá” – e, naquele contexto, sem qualquer esperança de escapar.
Lanzmann não se contenta em evocar estas memórias das vítimas, esta reconstrução do clima em que viveram. Vai além, ao entrevistar também moradores das imediações dos campos, que ainda se lembram da chegada dos vagões da morte. Alguns se lembram das pessoas que eram mortas a tiros, ao tentar escapar pelas janelas. Outros recordam dos sons de gritos, vindos do outro lado da imensa cerca de arame farpado que definia os limites de sua propriedade, contígua aos campos. Como era possível tocar a vida cotidiana ouvindo tais gritos? É isto que Lanzmann parece silenciosamente perguntar com estas imagens.
 
Não escapa ao diretor a persistência do antissemitismo em regiões que presenciaram estes massacres ou a deportação maciça de judeus. Como Grabow, na Polônia, em que camponeses de ar afável que ocupam naquela altura as casas deixadas pelos judeus não se acanham em criticar seus antigos moradores – descrevendo os homens como “desonestos” e as mulheres, “todas belas, porque não faziam nada, não trabalhavam”.
 
Entrevistando também ex-funcionários e oficiais nazistas – alguns filmados à revelia, com equipamento oculto, pois só haviam concordado em ceder entrevistas em áudio -, Lanzmann reconstitui a formidável máquina de eliminação dos judeus colocada em funcionamento pelo III Reich. Impossível não lembrar da filósofa Hannah Arendt e de seu conceito da “banalidade do mal” – que ela criou a partir da observação do carrasco Adolph Eichmann em seu julgamento em Jerusalém, em 1961 – ao ouvir a descrição minuciosa de um dos burocratas que cuidava dos transportes, falando da destinação de vagões ao transporte massivo de prisioneiros aos campos – como se se tratasse de uma mera operação administrativa e financeira, que tinha seus custos, aliás, cobertos pelos bens confiscados pelo Reich das próprias vítimas.
 
A obra é dividida em quatro DVDs e tem como extra um quinto, O Relatório Karski, que foi realizado pelo cineasta para a TV em março de 2010. Filmado em dois dias, em 1978, em Washington, este filme contém uma longa entrevista com o ex-oficial polonês Jan Karski, que foi o intermediário entre a resistência polonesa e o governo polonês no exílio durante a guerra. Disfarçado sob falsa identidade, como ucraniano, Karski visitou alguns campos de transição para prisioneiros e também o que restava do gueto de Varsóvia em 1942 – de onde já tinham sido deportados cerca dos 300.000 dos 400.000 habitantes. Levou, assim, um relato em primeira pessoa a governantes Aliados, como o presidente norte-americano Franklin D. Roosevelt, não raro sendo recebido com incredulidade.  
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