Para começar, não há aquele espírito demolidor que fez o sucesso de Shrek. Com Spirit, a estratégia da DreamWorks parece ser novamente avançar no terreno da Disney, mas agora visando o público infantil que a casa de Walt Disney vem cativando há mais de 50 anos. Além do mais, a mensagem de Spirit é um primor de correção política. Quem quiser irreverência, vai ter mesmo de esperar por Shrek 2, que já está em produção no estúdio dirigido por Steven Spielberg, David Geffen e Jeffrey Katzenberg.
O visual é fantástico. Quando as manadas de cavalos correm soltas pela pradaria, a impressão que se tem é de que há câmeras no meio de animais reais. Não se poupou nada em termos de efeitos, como 3D e 2D, e todo tipo de mágica de que os programas de computadores modernos são capazes, mesmo que a maior parte do filme tenha sido produzido pela fórmula tradicional, com desenhos manuais. O resultado final em Spirit é uma delicada mixagem das duas escolas.
A pesquisa na pré-produção foi igualmente intensiva. O supervisor de animação, o inglês James Baxter (que começou a carreira em Uma Cilada para Roger Rabbit), passou nada menos do que dois meses estudando exaustivamente os cavalos, sua estrutura óssea e muscular, com a ajuda até de um paleontologista para dar mais realismo aos movimentos.O principal desafio, entretanto, foi emprestar aos cavalos expressões faciais que são tipicamente humanas. A intenção foi humanizar ao máximo os cavalos, especialmente o herói, Spirit. Embora não cheguem propriamente a falar, ele e os outros cavalos pensam e seus pensamentos são audíveis para a platéia - com Matt Damon fazendo a voz do protagonista.
A correção política começa, aliás, pelo fato de o herói ser um cavalo. O desenho pode até ser visto como uma espécie de faroeste politicamente correto, em que a história, desta vez, é contada do ponto de vista de um animal que se nega a ser domado e que tem como único amigo e protetor humano um índio - justamente quem se deu pior com a conquista do Oeste. Aqui, a cavalaria entra como vilã, procurando sem descanso submeter Spirit, para dar apoio às legiões de soldados que dizimam impiedosamente os Sioux, os Dakotas e todos os outros nativos.
Para as crianças, porém, Spirit é um herói muito convincente. Luta contra todo aquele que procura pôr-lhe arreios, insistindo em seu direito à liberdade. E quem duvida da mensagem patriótica lá no fundo da história, é só atentar para o pássaro que está nos primeiros fotogramas: nada menos do que a águia careca que é o símbolo dos EUA.
Vozes na versão original: Matt Damon, James Cromwell, Daniel Studi.
Canções: Bryan Adams.
Vozes na versão dublada: Marcos Luiz Jardim Costa, Márcio de Freitas Simões, Bruno Miguel Pereira Leite.
Canções: Paulo Ricardo.
Cineweb-5/7/2002
