03/06/2026
Comédia

Os eternos desconhecidos

Cosimo é preso por tentar roubar um carro. Amigos convencem Peppe, um boxeador fracassado, a tentar assumir o crime e livrar o outro da cadeia. No final, os dois ficam presos. Mas Peppe sai em condicional, levando consigo o plano de Cosimo - roubar o cofre de uma casa de penhores, que fica acima de um apartamento supostamente vazio.

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Não é à toa que a gente sente saudade das comédias italianas dos anos 50 e 60, época em que diretores e roteiristas de um talento extraordinário pareciam brotar do chão naquele país, criando histórias que não só faziam rir muito, como expunham o avesso dos costumes, tradições e valores – ou falta deles – com uma ironia que levava todo mundo pensar.

Um digno exemplar dessa escola é este Os eternos desconhecidos (58), oportuno relançamento em DVD pela Versátil, em que o mestre Mario Monicelli (1915-2010) exercita sua verve para comandar a história de uma trupe de ladrões pés-de-chinelo, que sonham em dar um grande golpe, roubando o cofre de uma casa de penhores.
 
Só tem craques no time que coloca em pé essa grande confusão, seja o diretor, sejam os roteiristas, sejam os atores. O diretor, que assinou clássicos como A Grande Guerra, Quinteto Irreverente, Meus caros amigos, Parente é serpente e O Incrível Exército de Brancaleone. Os roteiristas: além do próprio Monicelli, Suso Cecchi d’Amico (Parente é serpente); Furio Scarpelli (A família, O carteiro e o poeta) e Agenore Incrocci (O incrível exército de Brancaleone). Todos eles, trabalhando numa história cuja centelha original seria um conto de Italo Calvino, Furto in una pasticceria. Os atores: Vittorio Gassman, Marcello Mastroianni, Claudia Cardinale, Renato Salvatori e o impagável Totò.
 
Não há um único personagem que não seja um fracassado, mas este fracasso sempre tem um lado irônico, que permite a Monicelli exercitar seu gosto pelo humor negro. Peppe (Vittorio Gassman) é um boxeador que tem “queixo de vidro” e, por isso, fica tentado a aceitar a proposta de ganhar 50.000 liras para assumir o crime (de assalto) de Cosimo (Mimmo Carotenuto) e livrá-lo de mais uma prisão.
 
Claro que dá tudo errado mas a curta permanência na cadeia permite a Peppe, graças à boca grande de Cosimo, saber de uma suposta barbada: uma casa de penhores na rua Madonna esconde tesouros, que poderiam ser facilmente roubados através de um apartamento ao lado, que estaria vazio. Saindo em condicional, Peppe resolve apossar-se do plano de Cosimo, partindo para formar sua gangue.
 
Dela fazem parte um fotógrafo na pior, Tiberio (Marcello Mastroianni), que teve que pôr no prego sua câmera para poder sustentar-se e ao filho bebê, enquanto sua mulher cumpre uma sentença na prisão; um siciliano esquentado, Michele (Tiberio Murgia), que vive obcecado para que ninguém se aproxime de sua bela irmã, Carmelina (Claudia Cardinale), que ele tranca em casa; e o golpista Mario (Renato Salvatori), que vive juntando presentes para sua “mãe”, que na verdade são três funcionárias do orfanato em que foi criado.
 
Nenhum deles tem o menor jeito para a coisa e isto não escapa da percepção de Peppe. Decide-se, então, recorrer a um especialista, Dante Cruciani (Totò), o maior perito em arrombamento de cofres, que está em condicional.
Alguns dos melhores momentos do filme são proporcionados pelas “lições” de Dante aos candidatos a ladrão, bem como as próprias manobras necessárias à observação do apartamento – que, afinal, não está vazio... – e as subsequentes mudanças de planos. De sua parte, Cosimo conta os dias para sair da prisão e acertar as contas com Peppe, que roubou seu golpe.
 
Por trás desta história aparentemente singela, Monicelli projeta a verdade comum destes personagens perdidos numa Itália empobrecida, habitantes do andar de baixo que nunca se dão bem. Mas, em cada fotograma – filmado num belíssimo branco e preto de filme noir -, brilha também o inescondível amor de Monicelli e Cia. por esta humanidade miúda, que nunca desiste de tentar, seja lá o que for. E sobrevive a todas as quedas.
 
Em tempo: a refinada trilha jazzy é de Piero Umiliani.
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