18/07/2026
Documentário

O Rap do Pequeno Príncipe contra as Almas Sebosas

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O título é sonoro como o dos desafios de cordel. O melhor é que não se trata apenas de um mero recurso de marketing e sim de uma justa definição da história deste pulsante documentário, Prêmio Especial do Público no Festival É Tudo Verdade deste ano e Buriti de Prata no Festival Internacional de Brasília.

O filme corta um retrato vívido, a sangue quente, da duríssima realidade urbana da periferia do Recife, sem precisar de nenhum ator e sequer uma única segunda tomada de cena em seus intensos 75 minutos. Conta as histórias paralelas do rapper Alexandre Garnizé, baterista do grupo pernambucano Faces do Subúrbio, e do matador Helinho, condenado a 99 anos de prisão por 44 homicídios. A narração costura as coincidências que uniram os dois jovens. Num de seus inúmeros acertos de contas, Helinho executou um assaltante que havia atacado Garnizé. O músico absorveu das ruas a história do justiceiro, cuja libertação os moradores da periferia recifense não cessam de pedir, e compôs a música que dá o nome ao filme, usando o apelido do matador, Pequeno Príncipe - uma alusão aos seus escassos 21 anos de idade e sua condição de pseudo-rei no microcosmo de um país onde nenhuma lei ou ordem parece capaz de garantir-se sem violência.

A grande sacada dos diretores Paulo Caldas (de Baile Perfumado) e Marcelo Luna é mostrar as diferenças dessas duas trajetórias, de dois jovens brasileiros hoje, um bandido, outro artista, tendo como pano de fundo essa zona de exclusão social que se convencionou chamar, no Brasil, de periferia - e assustam as imagens do tamanho desse bolsão de pobreza em volta do Recife, que mais parece São Paulo vista do alto. A semelhança dói porque mostra que a doença social da miséria está cada vez mais generalizada e tem a mesma cara em todo lugar. Outra boa medida da direção é dar a palavra aos dois lados e, especialmente, abrir espaço para a mãe do criminoso. Ela é um retrato vivo das contradições desta situação - um retrato doído e impotente.

O documentário de Caldas e Luna foi o único representante brasileiro no último Festival de Veneza, em setembro. Exibido fora da competição mas participante de uma das principais mostras paralelas, "Novos Territórios", o filme teve o melhor que se espera num festival de porte: lotou suas três sessões numa sala equivalente a um cinema de shopping center (cerca de 300 lugares), ganhou aplausos e garantiu o interesse de pelo menos metade da platéia da última sessão para um pequeno debate com o diretor Paulo Caldas e a produtora Clélia Bessa. Na época, o crítico Maurizio Porro, do diário milanês Corriere della Sera, definiu o trabalho como um "documento instrutivo e chocante". A esperança é que sirva para chocar as consciências, além de comprovar que o cinema brasileiro está, a cada dia, superando a si mesmo.

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