03/06/2026
Drama

O Quadro-Negro

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Em seu segundo longa-metragem, O Quadro-Negro, Samira Makhmalbaf, diretora iraniana, a mais jovem cineasta vencedora do prêmio do Júri em Cannes (2000), transformou um tema simples numa verdadeira epopéia. Numa ação ambientada na fronteira montanhosa entre o Irã e o Iraque, dois professores tentam alfabetizar as crianças que por ali vivem. Mas, a preocupação com a sobrevivência torna este sonho quase um privilégio.

Com um quadro negro nas costas, Said (Said Mohamadi) e Reeboir (Bahman Ghobadi, diretor de Tempo de Embebedar Cavalos) vão de aldeia em aldeia buscando alunos para suas aulas. Muito mais que a esperança em alfabetizar, os dois tentam sobreviver numa profissão que possa afastá-los da única ocupação possível naquele lugar - pastorear cabras. Numa encruzilhada decidem que cada um tentará a sorte em lugares distintos - um parte para o cume da montanha e o outro segue em direção a um vilarejo.

Reeboir encontra um grupo de meninos contrabandistas e quase todos analfabetos. Como eles vivem em permanente estado de alerta, demoram para aceitar a presença daquele estranho entre eles. A paciência e a insistência do professor consegue arregimentar alguns poucos para seus exercícios de alfabetização, mas a maioria não entende em que a escrita e a leitura poderá ajudá-los. Quando o professor sugere que a leitura de livros lhes mostrará novos horizontes, um deles diz que "para ler livros é necessário estar parado e nós nunca paramos". Estes pré-adolescentes vivem em constante luta pela sobrevivência, ora fugindo de outros contrabandistas, ora dos guardas da fronteira.

Said, o segundo professor, perambula entre um vilarejo e outro até encontrar uma caravana de curdos que tenta voltar para a vila de origem no Iraque. Ali também não tem ninguém que queira aprender a ler e, para aplacar a fome, o professor concorda em guiá-los até a fronteira em troca de uma escassa ração. Nesta longa e perigosa travessia, o quadro negro é utilizado como maca, varal, escudo contra balas perdidas e também como biombo, menos como instrumento de aprendizado formal.

Como é comum no cinema iraniano, este filme tem cenas comoventes. Como a história do menino que vislumbra uma nova vida através do conhecimento. Ou quando o professor Said se casa com Halaleh (Behnaz Jafari), uma viúva curda. A cena do casamento, realizada por um ancião do grupo, é delicada e, ao mesmo tempo, engraçada pelo inusitado. A diretora Samira trabalha a trama como uma documentarista, deixando de lado uma preocupação maior com a estética. Isto torna o filme mais próximo da realidade - desumana e quase sem nenhuma chance de mudança, nesta que é uma das regiões mais pobres do mundo e em estado de guerra perene.

Cineweb - 8/2/2002

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