Em seus filmes e contos, a norte-americana Miranda July – que também é artista plástica – lança um olhar terno, às vezes ingênuo, sobre o mundo em que vivemos. Seu estilo é uma combinação de fantasia e realismo, repleto de metáforas, devaneios, mas, estranhamente, com os pés no chão. Seu novo longa, O futuro, materializa essa estranha combinação que, se por um lado, pede comprometimento, por outro, oferece uma recompensa em mesmo tamanho.
Num primeiro momento, seus personagens parecem chatos, arrogantes e autocentrados. E provavelmente até são - no fundo, como todos nós. Nesse momento, vale lembrar que o nome do primeiro longa da diretora é Eu, você e todos nós (2005). O que ela mostra em seus filmes é gente como a gente – se apenas se tivesse coragem de admitir que somos assim. Essas pessoas parecem ter toques autobiográficos, mas não são exatamente a diretora, porque seus personagens não parecem capazes de ter tamanha percepção de si mesmos.
Aqui, o centro é um casal na casa dos 30 anos, Jason (Hamish Linklater) e Sophie (a própria Miranda) – ambos consumidos por suas inseguranças e passividade. Adultos reticentes sobre sua entrada na vida adulta – ou mesmo resistentes. Ela é professora de dança para crianças, ele dá assistência por telefone a compradores confusos. E percebem que atingiram uma idade na qual esperavam que suas vidas fossem diferentes, mais empolgantes, mais relevantes.
Para tentar romper com a inércia, adotam um gato doente, chamado Paw-Paw, – dublado pela diretora – que é o narrador e ponto de vista do filme. Essa é a chance de aceitar as responsabilidades da vida adulta, a oportunidade de amadurecimento dos dois personagens. Para isso, resolvem correr atrás do tempo que perderam com coisas que não os completavam, abandonando seus empregos. Jason começa a trabalhar numa organização ambiental, e Sophie cria danças estranhas que, acredita, lhe trarão reconhecimento quando forem colocadas na internet.
Pode representar um momento de resistência ao envelhecimento, ou a necessidade de cada um viver o tempo à sua maneira. Mas Jason tem mesmo a capacidade de parar o tempo. O tempo congelado pode significar que o casal está em estágios diferentes, em momentos diferentes de sua vida, e um deles precisa abrir mão de envelhecer por algum tempo para que o outro o alcance. Sophie, por sua vez, se envolve com um homem melancólico (David Warshofsky).
Neste ponto, O Futuro poderia embarcar num triângulo amoroso convencional. Mas July opta por valer-se de um tipo de realismo mágico - não apenas o gato fala, a Lua também – para retratar pessoas tentando amadurecer, tentando se transformar naquelas com que sempre sonharam.
Nas mãos de Miranda, pequenas agruras do dia-a-dia ganham dimensões cósmicas, e nisso residem a força e beleza do filme: em sabermos que somos únicos, e, ao mesmo tempo, iguais a todas as outras pessoas. Todos, com a expectativa do que virá depois.
