Trata-se de uma falsa biografia intercalada por depoimentos, como do próprio Woody Allen, que servem apenas para reforçar a intenção cômica - um pouco à maneira de Zelig (83), só que bem mais picaresco por conta da interpretação endiabrada de Sean Penn, merecidamente indicado ao Oscar de melhor ator.
Poucas e Boas, o título brasileiro do filme, é quase outra piada. Mas pode-se até considerar que foi uma adaptação criativa para uma expressão intraduzível. Se fosse vertido ao pé da letra, "Sweet and Lowdown", o nome original, poderia resultar em algo como "doce e baixinho", aquela forma de tocar da bossa-nova, por exemplo. Outra ironia, porque nada mais longe da doçura e da discrição do que o espalhafato do protagonista, um tipo duvidoso, briguento, cleptomaníaco, bêbado e cafajeste, que não tem qualquer impedimento moral para ganhar dinheiro como cafetão sempre que a oportunidade se apresenta - ainda mais porque ele é um músico cuja tragédia é não conseguir convencer seus contemporâneos da grandeza de seu talento, que ele acredita só ter competidor à altura no guitarrista belga Django Reinhardt (1910-1953).
Obcecado, Ray encontrou-se duas vezes com seu ídolo. Mas, nas duas ocasiões, a emoção foi tanta que ele simplesmente desmaiou. Não teve nem mesmo a oportunidade de declarar sua admiração por Django, muito menos ver se o outro o ajudava a galgar alguns degraus na carreira, sempre atrapalhada por vexames homéricos. Num deles, uma das seqüências mais hilariantes do filme, o guitarrista inventa de colocar no cenário de um show uma enorme lua de papel que lhe servirá como cadeira de balanço e deverá subir à medida que ele toca. Na noite da estréia, porém, Ray aparece tão bêbado que lhe falta coragem para sentar-se na engenhoca que ele mesmo criou. Empurrado pelos produtores, que agora exigem a performance, o músico finalmente encara a acrobacia - apenas para espatifar-se, ele, a guitarra, a falsa lua e qualquer moral que lhe restasse diante da platéia já enfurecida.
A devoção por Django abre uma janela para o real, já que o guitarrista de origem cigana e seu talento lendário realmente existiram. Mas também serve de pretexto cômico, especialmente porque o músico verdadeiro tinha uma personalidade quase tão tempestuosa quanto a de Ray - sem contar a de Sean Penn, na vida real, que recentemente desancou até o Woody Allen que lhe deu a oportunidade de viver esta que é uma de suas melhores interpretações. Personagem, ator e fetiche feitos um para o outro, como se vê.
Dentro do filme, em todo caso, é um grande prazer assistir Penn reinventar-se diante das câmeras e mostrar com tanto gosto sua habilidade cômica para encarnar as desventuras de Ray. Ele o faz com tanta propriedade e sabor que transforma até a antológica cafajestagem de seu personagem em motivo de ridículo. A desmoralização deste machão começa já no início, quando sai com um amigo para encontrar uma namorada. Os dois conhecem duas moças e, autoritário, Ray exige escolher sua acompanhante. Fica com a mais bonita, se achando muito esperto, mas sem desconfiar de que se trata de uma muda, Hattie (Samantha Morton).
Sendo Woody Allen o diretor espirituoso que é, escapa fácil de qualquer pieguice ao retratar uma personagem com uma deficiência, dando chance à jovem atriz inglesa Samantha Morton de mostrar seu talento de clown. Ela é comovente e engraçada a um só tempo, chapliniana como Virginia Cherrill que encarnou a florista cega de "Luzes da Cidade" (31). Um mérito que não passou despercebido também à Academia de Ciências e Artes Cinematográficas de Hollywood, que indicou Samantha entre as cinco melhores atrizes coadjuvantes em 99.
A força de Samantha é tão grande nesta comédia que ela não é ofuscada nem mesmo quando entra sob os refletores a escultural Blanche (Uma Thurman), uma divertida socialite com queda por homens rudes, que se torna protetora de Ray. Este rapidamente enxerga nela o primeiro degrau para um novo projeto de alpinismo social, desfrutando de novas roupas, carros e outros luxos, incapazes, porém, de mudar a sua essência de perdedor irredimível. Neste ambiente, uma ponta para se notar é a do diretor John Waters e seu indefectível bigodinho, que tanto furor fez no Festival do Rio BR 2000, no final do ano passado, onde veio prestigiar uma retrospectiva de seus filmes e seu novo trabalho, "Cecil B. Demente", ainda inédito no Brasil.
