Mas a crítica implícita no segundo longa-metragem deste cineasta não traz uma percepção apenas negativa da vida na ilha. Usa-se o humor para mostrar um personagem que representa o homem comum dentro de seu contexto, agora fantástico. Quem são os zumbis ou mesmo o que simboliza seu anti-herói são questões a serem interpretadas pelo espectador.
O Juan (Alexis Díaz de Villegas) do título é um quarentão sem muitas perspectivas, que vive de pequenos expedientes com seu amigo Lazaro (Jorge Molina). Quando, em um dia de pesca, encontram um zumbi flutuando em mar aberto (detalhe: com uniforme similar aos usados pelos prisioneiros de Guantánamo), a história e a crítica começam a entrar nos eixos.
Apesar de sugerir, Brugués não está interessado em explicar a origem desses zumbis ou se a invasão é apenas restrita à ilha. O roteiro tem como foco os conflitos do protagonista, aproveitando-se da excepcional verve cômica de Díaz de Villega – que aliás, é professor de interpretação naquele país.
Juan, como o próprio se julga, é um sobrevivente das intempéries políticas e sociais da história de Cuba. Por meio de seus parceiros, que inclui aí sua filha Camila (Andrea Duro), que volta para casa devido à crise econômica espanhola, o espectador ganha um mosaico bem-humorado da população.
Juan dos Mortos levou o prêmio de melhor filme iberoamericano no Goya, em 2013, batendo os favoritos, como a produção argentino-brasileira-espanhola Infância Clandestina (de Benjamin Avila, 2011) e a mexicana Depois de Lúcia (de Michel Franco, 2012). Uma façanha para uma obra de terror que intencionalmente brinca com o trash.
Brugués apropria-se não apenas dos personagens-coqueluche de George A. Romero (a partir do clássico A Noite dos Mortos-Vivos, 1968), mas também de sua preocupação em discutir temas sociais. Ao mesmo tempo, entretém o público com a comédia, tal como fez brilhantemente a paródia Todo Mundo Quase Morto (do inglês Edgar Wright, 2004), que passou despercebida pelos cinemas brasileiros, chegando diretamente ao DVD.
Os zumbis de Juan dos Mortos são tão cômicos quanto os personagens que os enfrentam. Pode parecer um filme menor, mas é cinemão com muita graça.
