Preste atenção ao primeiro depoimento do documentário A alma da gente. Ele vem de um garoto morador do Complexo da Maré e foi filmado há cerca de 10 anos. O menino, que naquela época descobria na dança uma forma de vida e dignidade, conta sobre a divisão do lugar onde morava por duas facções do tráfico inimigas. Essa ponta vai se unir com o final do documentário, uma década depois, quando os diretores Helena Solberg e David Meyer voltaram ao lugar para reencontrar aqueles adolescentes que entrevistaram num primeiro momento.
O filme acompanha a montagem do terceiro e último espetáculo do Corpo de Dança da Maré que, por três anos, foi coordenado pelo coreógrafo e educador Ivaldo Bertazzo. São os próprios entrevistados – no começo da adolescência – que contam suas histórias e revelam como a dança lhes abriu a possibilidade de um novo mundo.
Em meio a tiroteios, eles descem o morro para ir aos ensaios. Nestes, descobrem uma maneira de se expressar e como a arte pode ajudar a formar a identidade. Nos seus depoimentos, revelam seus sonhos que, quase sempre, incluem morar em outro lugar. É um retrato do Brasil que, apesar da distância temporal, não mudou muito em certos aspectos. Em 2012, os diretores procuraram novamente alguns desses adolescentes – agora adultos – investigando como aquela experiência transformou suas vidas.
Helena e Meyer têm um olhar aguçado para o elemento humano que emerge no filme. É a partir dele que vemos o retrato social e a possibilidade de mudança – além da capacidade redentora da arte.
