Se por um lado, o Maranhão não é um estado com tradição cinematográfica – apesar de sua produção de médias e curtas –, Frederico Machado, cineasta e distribuidor, pode estar dando os primeiros passos com seu O exercício do caos. Escrito e dirigido por ele, o longa é um suspense criado pelos silêncios, pelos estranhamentos e dilemas existenciais dos personagens. O filme estreia em São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte, Porto Alegre, Salvador, Florianópolis e São Luís.
Ao contar a história de uma família composta pelo pai (Auro Juriciê) e três filhas (Thalyta Souza, Thayná Souza e Isabella Souza), Machado se vale de sutilezas, de climas. Assim, o não-dito tem mais força do que os diálogos que a tudo explicitam. Quem são essas pessoas? Pouco sabemos sobre elas. Vivem numa fazenda de mandioca, são oprimidas por um capataz (Di Ramalho), têm sonhos que provavelmente nunca se realizarão.
A bela fotografia, também assinada pelo diretor, cria uma espécie de poesia visual ressaltando a natureza, algo quase libertador na vida dessas pessoas sem qualquer perspectiva. Os primeiros minutos, que acompanham em silêncio o cotidiano da família de protagonistas, beira o documental em seu distanciamento, que, aos poucos, dá espaço a um envolvimento emocional com seus personagens.
Os questionamentos existenciais dessas pessoas são conduzidos pelas indagações religiosas de um capataz que os explora, ao mesmo tempo, deseja corromper a inocência das garotas. E é exatamente entre o desejo e o pecado, a inocência e perversão, a ordem e o caos, que se constrói a narrativa do longa. Machado não abre mão de suas opções e faz uma estreia sólida em longa-metragem, pautada por um cinema de invenção, cujos silêncios e incertezas são a materialização dos anseios e aflições de seus personagens.
