Uma das principais razões para que espectadores que eventualmente tenham resistência contra o formato documentário se disponham a assistir a este filme, fora sua abrangência e qualidade, é o fato de que hoje ele não poderia sequer ter sido filmado. Produzido entre 1997 e 2000, foi feito numa época em que não havia ainda irrompido a atual intifada, numa das versões mais sangrentas da história da região.
Sem serem neutros em relação ao objeto de seu filme - afinal, são judeus, embora não morem em Israel - os diretores mantêm um elogiável equilíbrio ao aproximar-se de todos os grupos sem preconceitos, um fator essencial para a montagem de um painel realista de um dos pontos mais conflagrados do planeta. Selecionando pré-adolescentes, colhem interlocutores idôneos, meninos e meninas já devidamente convertidos às suas respectivas causas e inteiramente convencidos, a essa altura de suas vidas, de que estão do lado da verdade.
Assim, pode-se ficar espantado com a veemência do loiríssimo e cara de anjo Mahmoud, um firme apoiador do grupo extremista Hamas cuja família árabe mora na parte antiga de Jerusalém. Não menos convicto é o pequeno Moishe, morador de um assentamento judeu nos territórios ocupados que não quer nem ouvir falar que os palestinos têm algum direito a qualquer pedaço da terra que, para ele, foi dada a Abraão pelo próprio Deus.
Claro que nenhum destes dois garotos algum dia conversou com alguém do outro lado - e estes dois, particularmente, não se dispõem a fazê-lo. Neste sentido é que o filme proporciona sua oportunidade mais candente, ao promover um encontro entre os gêmeos de uma família judia não-religiosa, Yarko e Daniel, e palestinos como Faraj, um ativo participante da intifada que viu um amigo ser morto por um soldado israelense, e a menina Sanabel, cujo pai, jornalista opositor dos acordos de paz, é mantido há dois anos numa prisão de Israel sem acusação formal.
Ponto alto do documentário, este encontro, mantido no campo de refugiados palestino de Deheishe, comprova o que todo mundo pode intuir: vistos de perto, os inimigos se reconhecem humanos. Crianças que de outra forma nunca se veriam, separadas por barreiras a serviço de uma guerra permanente, brincam e comem fraternalmente na mesma mesa. Na hora da separação, o palestino Faraj chora, prevendo que uma ocasião como aquela não se repetirá tão cedo, talvez jamais. Pode ter razão, o que não invalida o esforço em prol da paz promovido por este filme, merecidamente premiado no Festival de Roterdã/2001, no Festival de Locarno/2000 e que venceu o prêmio de melhor documentário para a crítica que cobriu a 25ª Mostra BR de Cinema em 2001.
