20/07/2026
Documentário

Promessas de um Novo Mundo

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Com uma simplicidade tanto mais surpreendente quando se leva em conta a complicada logística que exigiu sua realização, este documentário acerta em cheio sobre a grande razão pela qual o conflito entre árabes e israelenses jamais se resolve: os dois lados simplesmente não se conhecem ou não conseguem conversar. Partindo de entrevistas com sete crianças entre 9 e 13 anos, palestinas e judias, os diretores de primeira viagem, Justine Shapiro e B.Z. Goldberg, lançam uma luz muito precisa sobre um tema tão exaustivamente discutido mas nunca devidamente esgotado nos noticiários de televisão.

Uma das principais razões para que espectadores que eventualmente tenham resistência contra o formato documentário se disponham a assistir a este filme, fora sua abrangência e qualidade, é o fato de que hoje ele não poderia sequer ter sido filmado. Produzido entre 1997 e 2000, foi feito numa época em que não havia ainda irrompido a atual intifada, numa das versões mais sangrentas da história da região.

Sem serem neutros em relação ao objeto de seu filme - afinal, são judeus, embora não morem em Israel - os diretores mantêm um elogiável equilíbrio ao aproximar-se de todos os grupos sem preconceitos, um fator essencial para a montagem de um painel realista de um dos pontos mais conflagrados do planeta. Selecionando pré-adolescentes, colhem interlocutores idôneos, meninos e meninas já devidamente convertidos às suas respectivas causas e inteiramente convencidos, a essa altura de suas vidas, de que estão do lado da verdade.

Assim, pode-se ficar espantado com a veemência do loiríssimo e cara de anjo Mahmoud, um firme apoiador do grupo extremista Hamas cuja família árabe mora na parte antiga de Jerusalém. Não menos convicto é o pequeno Moishe, morador de um assentamento judeu nos territórios ocupados que não quer nem ouvir falar que os palestinos têm algum direito a qualquer pedaço da terra que, para ele, foi dada a Abraão pelo próprio Deus.

Claro que nenhum destes dois garotos algum dia conversou com alguém do outro lado - e estes dois, particularmente, não se dispõem a fazê-lo. Neste sentido é que o filme proporciona sua oportunidade mais candente, ao promover um encontro entre os gêmeos de uma família judia não-religiosa, Yarko e Daniel, e palestinos como Faraj, um ativo participante da intifada que viu um amigo ser morto por um soldado israelense, e a menina Sanabel, cujo pai, jornalista opositor dos acordos de paz, é mantido há dois anos numa prisão de Israel sem acusação formal.

Ponto alto do documentário, este encontro, mantido no campo de refugiados palestino de Deheishe, comprova o que todo mundo pode intuir: vistos de perto, os inimigos se reconhecem humanos. Crianças que de outra forma nunca se veriam, separadas por barreiras a serviço de uma guerra permanente, brincam e comem fraternalmente na mesma mesa. Na hora da separação, o palestino Faraj chora, prevendo que uma ocasião como aquela não se repetirá tão cedo, talvez jamais. Pode ter razão, o que não invalida o esforço em prol da paz promovido por este filme, merecidamente premiado no Festival de Roterdã/2001, no Festival de Locarno/2000 e que venceu o prêmio de melhor documentário para a crítica que cobriu a 25ª Mostra BR de Cinema em 2001.

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