20/07/2026
Documentário

Os dias com ele

A cineasta estreante Maria Clara Escobar busca aproximar-se de seu pai, Carlos Henrique Escobar, uma figura que esteve distante de sua vida e que hoje ela procura decifrar.

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Radicado em Portugal há cerca de dez anos, Carlos Henrique Escobar é filósofo, dramaturgo e professor universitário, autor de mais de 30 livros. Mas estas qualificações não são o objeto do documentário Os Dias com Ele, que não procura suas pegadas biográficas no sentido estrito. O filme é sobre ele, sim, mas em relação à sua filha e diretora estreante, Maria Clara Escobar, que transformou em imagens sua pergunta: “Quem é este homem”?
 
Desde o seu início, Os Dias com Ele se propõe como uma jornada desigual, que não recua diante de suas hesitações e desconfortos. O estranhamento visível, e nunca negado, nesta relação filha-pai, fica evidente desde os primeiros fotogramas, em que Carlos discorre sobre sua infância de abandono e sofrimento, com uma espécie de distanciamento crítico, sem nenhuma autopiedade. São os primeiros vestígios de uma revelação que será sempre entrecortada, de uma personalidade forte e espinhosa, cuja entrega à câmera da filha oscila entre a resistência e a vaidade.
 
Diante dessa câmera, tantas vezes hesitante, de uma filha jovem que se arriscou a partir sem um mapa seguro nesta investigação, o pai, um intelectual rebelde, sedutor e experiente, tenta diversas vezes interferir, assumir o controle. Sugere modos de conduzir o filme, o uso de seus textos. Faz rodeios para falar da própria tortura durante a ditadura militar no Brasil, apesar da insistência quase sádica da filha, numa autodefesa que não deixa de ser reveladora deste duelo que se trava ali mesmo, no núcleo do filme. Eventualmente ele se rebela contra uma determinação da filha diretora e abandona o quadro, deixando em seu lugar uma cadeira vazia.
 
Todos estes ruídos, se não preenchem as lacunas irremovíveis deste relacionamento, somam a favor do que o filme procura dizer. Ainda que a inexperiência da diretora nem sempre pareça dar-se conta disso.
Há também alguns incômodos, como a evidência clara, em mais de um  momento, de que o microfone estava ligado sem que o protagonista soubesse disso.
 
Entre as lacunas, faltou talvez a diretora colocar mais a própria voz. Ela o faz no começo, quando mostra fotografias de alguns homens que estiveram presentes em sua infância e repete: “Este não é meu pai”. Um mecanismo revelador da ausência do pai em sua vida, que não vai adiante. É um dos muitos circuitos interrompidos deste filme cheio deles, em que se explora uma relação que se desenrolou pela vida, travada por muitos obstáculos, e que subsiste assim, como é. Retrato entrecortado, mas em movimento, sem ponto final.
 
O filme foi o grande vencedor da 16ª Mostra de Cinema de Tiradentes. 
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