03/06/2026
Drama

Vic+Flo Viram um Urso

Duas ex-presidiárias, Vic e Flo, que viveram um caso amoroso, tentam reconstruir sua vida fora da prisão. Na casa de um tio de Vic, elas têm um refúgio, mas não escapam do preconceito e outras dificuldades.

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Espécie de Santo Graal de todo ser humano, a liberdade é, ao mesmo tempo, o sonho e o pesadelo que cada indivíduo guarda em si mesmo. A relatividade das condições que levam alguém a sentir-se livre ou não dentro de sua própria vida é o que marca Vic+Flo Viram um Urso (2013), de Denis Côté, um filme sobre aprisionamento travestido em uma espécie de fábula de suspense sobre vingança. Para exemplificar tal sensação, nada mais apropriado do que a escolha de um casal de ex-presidiárias como protagonistas, que mesmo fora da prisão não conseguem se livrar dos estigmas – de ex-detentas e lésbicas, por exemplo – que as mantêm presas em suas novas rotinas.
 
Victoria Champagne (Pierrette Robitaille), uma mulher cujos 61 anos muito sofridos são evidentes na amargura presente em seu rosto, aparece na casa de seu tio Émile (Georges Molnar), em um vilarejo  na floresta canadense. Por causa da idade já avançada, o tio está em uma cadeira de rodas, não conseguindo mais falar e dar conta de si mesmo, tendo que ser auxiliado por um conhecido, o garoto Charlot (Pier-Luc Funk). Contra a vontade do rapaz e de seu pai (Olivier Aubien), Victoria passa a morar na cabana do tio e tentar seguir sua vida.
 
Sem ler a sinopse antes, o espectador demora a entender que Vic era uma detenta e está em condicional. Isso fica subentendido com a entrada na história do agente Guillaume (Marc-André Grondin), responsável por vigiá-la, e a chegada de Florence Richemont (Romane Bohringer), companheira dela nos tempos de presídio que está em liberdade. No entanto, a impressão de que está livre é logo interrompida pela chegada de uma mulher misteriosa, que se apresenta como Marina, mas se revela depois como Jackie (Marie Brassard), um fantasma do passado nebuloso de Flo que volta a assombrá-la.
 
Diretor do documentário Bestiaire (2012) e do ficcional Curling (2010), Côté, que também assina o roteiro, utiliza vários elementos para criar metáforas e metonímias sobre a tênue relação que as pessoas têm com este objeto de tanto desejo. O anseio por uma liberdade inalcançável está representado simbolicamente com as sequências em que Vic assiste ao garoto Charlot brincando com um helicóptero aeromodelo, aos ciclistas passando pela rodovia ou à corrida de kart, tendo no movimento dos veículos a emulação desta ambição. A paleta de cores mais viva nessas cenas e naquelas rodadas no bosque contrastam com os tons acinzentados que marcam o restante do longa, ou seja, a rotina das protagonistas.
 
A liberdade de que desfrutam naquela cabana não é a que almejavam após anos de reclusão. O próprio relacionamento amoroso entre elas, já marcado no título com o sinal de + que as une, se revela uma prisão, especialmente para Flo que, alguns anos mais jovem do que Vic, ainda deseja curtir a vida e sair com os homens que conhece no local. Também o passado, o conservadorismo e o preconceito são outros dos inúmeros empecilhos à felicidade que buscam, todos eles representados na imobilidade da cadeira de rodas e mutismo do tio Émile, no gesso em Flo e na armadilha, por fim. A fotografia de Ian Lagarde, em seu primeiro longa-metragem, repleta de planos fixos, também denota o aprisionamento dos personagens – há ainda os planos da janela, vista por dentro da casa, para reforçar tal sensação.
 
A produção canadense que ganhou o prêmio Alfred Bauer e concorreu ao Urso de Prata no Festival de Berlim de 2013, prima, porém, mais pela estética do que pela afeição aos seus personagens ou construção de uma grande trama de suspense. Em relação ao primeiro item, o que compensa é a interpretação de Pierrette e Romane – presentes em Mambo Italiano (2003) e O Apartamento (1996), respectivamente – dando humanidade às protagonistas, assim como a de Marc-André – mais conhecido por seu papel em C.R.A.Z.Y. – Loucos de Amor (2005) – como o preocupado e doce Guillaume.
 
Quanto ao parco suspense apresentado no roteiro, a principal contribuição na tarefa de gerar aflição no público vem da trilha sonora da estreante Melissa Lavergne, marcada pelos tambores que remetem a uma sonoridade primitiva, apontando para o violento instinto humano que se revelará em um final brutal e grotesco. É em plena natureza que se revela o tal “urso” do título, representado através de uma personagem tão caricaturalmente má, como metáfora do que há de pior na sociedade atual que ainda prima pela barbárie. Somente quando conseguem se desvencilhar dessa sociedade que as persegue, é que Vic e Flo conseguem andar livremente.
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